sexta-feira, 24 de junho de 2016

Histórias da Clandestinidade


   AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA

AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA





Histórias da clandestinidade

 

                                                     Eliane de Marcelo


     
   (escrito em 1990)
 
             E no entanto há signos... Sim, uma produção enloquecida, toda a história de antes e depois, mas tudo isso pode ficar para mais tarde porque não posso mais distinguir claramente e nem seria interessante, passando a viver na sombra de sombras mal definidas. Acredito ou não no que estou vivendo, mas isso não importa. Porque importa? Minha pele abriu novamente e eu estou impossivelmente livre. Vagando por todos os universos concebíveis, mas e que importa isso? As mirações e os universos não acabam sem continuar para sempre, de modo que é tudo uma questão de continuidade entre o finito e o infindo: entre, na passagem, não há nada mais para fazer.

               Hoje e Aqui, qual o interresse? Sinto raios percorrendo o meu corpo, sinto tremores imperceptíveis por debaixo, bem rente, da pele. O que haverá aí? Eu pergunto com a mão rastreando os sinais, os movimentos, e delocando a atenção para a palavra do ditafone íntimo, o Deus de cada um, que em meu caso, falha. No silência de uma atenção desorientada, estou respirando exatamente pelo raio, exatamente no local, respiro pelo pulmão e o ar sairia pelas costas, se houvesse costas. Mas o que há é uma pele aberta.

         Você está fantasiando. Faz leituras alucinatórias, como alguém que romantiza o próprio estado de espírito, ou até mesmo suas sensações corporais. É madrugada, e eu estou acordada, desperta de um sono interrompido às duas em ponto por algum alarme interno totalmente destituído de ressonância externa. Todos os dias, ultimamente. Eu penso, e acendo um cigarro. Mas antes que o pensamento se estabilize e as palavras formem filas, quase mesmo antes de acordar, o olho divisava uma cadeira emergindo da escuridão, com todas as bugigangas que se encontravam atulhadas em cima dela, sim, eu as divisava, na escuridão uma por uma, e como era possível? Havia uma luz destacada que tornava tudo na cadeira absolutamente visível, mas não havia luz externa, o clássico Noir das graffic-novels, só que vivido pelo próprio olho. Bem, você está fantasiando isto, eu comecei, e a imagem destacada desapareceu, a escuridão voltou a ficar contínua, as palavras se completaram e agora já fumamos todo o cigarro. Fantasiando ou não, estou vivendo uma vida incompreensível por todos os modos, e não me sinto semelhante a pessoa alguma sobre a terra. Quer dizer na realidade que eu perdi a diferença em relação a tudo o mais. Não é um processo de identificação o que ocorre, porque nada ocorre. Eu mesma não ocorro. Onde isso está acontecendo, eu pergunto? Estou deitada, vidrada, espalhada e fixada na cama, como uma pedra ao solo. Nada poderia ser feito, então nada se faz. Mas tudo isso passa porque acordo todas as vezes em que o meio dia ou a uma da tarde se aproxima. Estudei a escuridão com os olhos até amanhecer. Como qualquer profissional orgulhoso da sua tarefa, eu acordo às duas da tarde e fico todo o resto do dia lendo a história da literatura, da máfia e da ciência da dedução.

 
              Provavelmente haverá uma espécie de movimento, nas horas noturnas por excelência, entre dez e meia noite, quando estarei acompanhada. Sim, eu não vivo sozinha e no entanto algo vive, que não eu. É um belo modo de separar o eu do resto.

 
               O que você está fazendo? Nada, eu me respondo com honestidade. Não estou fazendo nada e não houve uma hora em que eu pudesse ter feito. Na verdade estou um pouco confusa quanto a isso; o que quer dizer fazer? Onde estão as ressonâncias, onde estão tramas, mas o que eu quero mesmo é constatar se não ocorre na verdade uma grande covardia. Bem, eu não quero, mas mesmo assim a pergunta se repete: covardia? Mas de que modo? É como alguém que mergulhasse definitivamente a bordo de um submarino destinado a romper o fundo do oceano. O tempo está indo muito depressa. Já acabaram os dois lados de um disco inteiro. Mas ainda há uma canção, eu percebo. Oh não, era só um acorde separado à moda psicodélica.

               E na minha cabeça um vapor contínuo, fervilhante. Porque você não pode desaparecer, uma vez que já se sente ausente? Qual o domínio que os sentidos dos outros podem ter, como um radar, a me detectar em qualquer quadrante desta cidade? Sinto-me uma folha de face dupla.

 
         Tudo isso seria uma meditação se fosse possível meditar. Mas não é. Nem descrever, apesar de todos os esforços, o milagre não vinha DALI. Se é possível noticiar. Até o vivo noticia a existência. Não adianta perseguir os signos pois isto significaria você perseguindo.

 
          A França está gritando insistentemente: maio de 68, maio de 68, e eu faço o possível para não ouvir. Mas tudo é mais forte. E a França finalmente pode se apresentar, o últlimo reduto da inteligência, com suas vestes tão próprias e não há elegância sem haver um gesto, e um refinamento, entendam isso (refinamento, quer dizer) e capacidade de entender ou de apreciar um refinamento, e problema dos usos, e produção de subjetividades e as máquinas plageantes.


            Máscaras, é claro. Isto é... Meu amigo, nada se repete. Como está ficando tão desprovido do gosto, quer dizer interesse. Seria uma questão de fora e dentro, mas o caso é que não tenho tempo de ficar demonstrando as coisas, porque para cada demonstração precisariam ser lidas umas duzentas e cinquenta obras no mínimo (e no máximo quatrocentas. Daí pra diante é um professor, mas passando do milhar, você é um clandestino).

 
              Falta gosto, interesse, e sobra em compensação, a concordância, nossa velha amiga obesa. Nossa. Nós. Vós. Eles.

             Procurem os seus labirintos, eu vos digo. Porque eu descobri a soma total.

             Bar clandestino na rua (*). Estou assim. Legal. A lua mais bonita da minha vida. A mais bonita lua anterior estava de madrugada. Agora era o crepúsculo.

 
             Ah, você quer dizer, quando os seres humanos passaram para os filhos dos seres humanos? É isso que você quer saber? Meu Deus, o que ele quer saber? Omphales e o segredo babilônico, Top Secret, Top Secret. Mas isso apenas impede de falar. Não impede de escrever, agora o problema não está de modo algum restrito às palavras de ordem, equivalentes, concordantes, é um problema de sintaxe um pouco mais complicado na era do computador. Nossos cálculos estão modificados. Nós não podemos ser. Ad infinitum. Claramento confuso você queria dizer um diz, mas não quis. Você tem horror a isso.

o    Operações sintáticas são novas sínteses?

              Meu caro, você sabe que isso é impossível. Mas todos nós sabemos tudo. Eu acho diferente. Compreende, porque você e eu achamos, e qual é o valor de achar? É preciso porém, ter certeza para operar o paciente, do contrário as mães das vítimas nos condenariam à morte, se tivessem os poderes para tal. Tornando grave inconveniente a distinção de uma colocação honorífica. Sendo assim, criam-se sistemas de métodos de leitura.

 
          Laudanum. O Deus negro. Sonhos confusos e sombras orientais. De modo que o computador nasce todo o dia na sua cabeça. Nós somos os filhos da humanidade. A civilização Azteca, no ano mil, que estava migrando para o sul, depois da queda do império Tolteca. Império? Bem, modo de falar da geografia moderna.

 
          Estou enchendo a minha cabeça de coisas. Mas isso é impossível. Não com Laudanun, nem com o branco dia nem com a santa noite. Vamos resumir o mistério do mundo. Tudo começou a acontecer em quarenta. Depois cinquenta, e então, oh, sessenta, setenta, oitenta, noventa. Quando chegar os cem, tudo volta para o começo e finalmente conseguiremos produzir algo novo.

 
        Jam- Session, corretamente. Viagens e lsd, e música, pura música das teclas pretas de tinta rubra. Eu também sou pianista, e guitarrista, eu estou fazendo uma viagem completamente impossível, até hoje.

          Uma viagem, pois é. Lá voltamos nós.

         Estou na minha cadeira azul de transmissão, recepção e passagem. Quer dizer que eu trabalho com informações? É um modo muito engraçado de colocar a coisa. É o mesmo que um gravador dizer para uma vitrola somos feitos da mesma energia. É o mesmo que, eu queria dizer, outra coisa e mais outra, e mais outra ainda, e tudo vai ficando tremendamente possível, mostramos finalmente a necessidade da nossa intervenção, possível o que acontece, por isso, aquilo NÃO PODE acontecer, a impunidade, etc. Etc. E uma França como reduto da consciência, falando a linguagem da Nova Consciência, e louvando os poetas do Rock, França, Itália, Portugal, Espanha, México, Brasil, Colômbia, Venezuela, Estados Unidos, mas vocês não podem ter esquecido o oriente.

             É para lá que as pessoas olham quando querem alguma coisa, etc. Etc.

           O tempo, etc. etc.

           O corpo, etc. etc.

 
           Mas você devia se fundamentar, meu rapaz, para poder dizer o que quer impunemente. Trazer para casa, isto é, caçar. Narcótico e instrumentos musicais. O baixo acompanha a música por dentro, quero dizer, Ave blues e Rock'nroll. Temos escritores cosmopolitas que até sabem de música e medicina no modernismo. O modernismo me dá vontade de ser Punk. A revolução estava aqui e ali, como sempre, e alguns se aproveitaram dese expediente, deveras interessante de dispor de homens obesos.

 

Capítulo

                Dá tudo no mesmo, estar aqui ou lá, porque os lugares estão sempre em todos os lugares. Então o trabalho de encontrar se torna uma aventura equilibrística. Todo o Dia, é o fantasma na associação mais próxima. Todo o Dia. Não, Não, “don't you cry”, everybody tem que ir lá. Um curso. Pois é. Empreendimentos diários é tudo o que você precisa para se normalizar. Os toltecas foram um caso muito subreptício de clandestinidade. Os aztecas sobreviveram em bandos isolados. O Vazio, e o ano Mil americano. E quatro séculos depois, as tintas iriam se misturar...

             É verdade que sempre estamos falando da mesma coisa. Reclama-se fases mais íntimas. Como assim, você é quem afinal?

              Inimigos de Narrativas, mas o que é uma narrativa? Oh, querido, estamos contando o tempo na tua cabeça. Alteramos teu curso, inserimo-nos no planejamento da reta. E é tão simples que você queira tudo o que eu posso te dar. O inimigo é aquele que impede, ou aquele que obriga a aparecer?

          Há é claro, a sessão dos fotogramas. São imagens mentais que nos ocorre depois do décimo milhar... Pedaços de melodia começam a se infiltrar na passagem das nuvens. Tons inusitados de cor são percebidos ao crepúsculo. Uma teoria do reflexo. Bem, estamos em mil novescentos e noventa. Ninguém está lembrando do ano DOIS mil. Olhando daqui é como uma coisa na frente daquilo que está à frente, portanto não interessável no momento. Por outro lado, absolutamente toda a comunidade de informação neste planeta está empenhada em uma tarefa.

             Quem são esses, que não haviam aparecido na história? Bem, vamos falar da primeira classe. Mas como assim, classes? No sentido de conjunto, em termos de igualdade da propriedade entre os elementos, partilhada portanto, a propriedade. Porque toda a tarefa está codificada no departamento de informações e tudo o que importa é esse código, que uma vez partilhado por todos, nós o teremos como sistemas negativos, e produziremos sempre uma resposta ao SEU argumento, de modo que o colocaremos em oposição ao nosso, e por conseguinte tudo é hierarquizável.

 

Capítulo

                    A adorável zorra está completa. É uma condição, um princípio para o meu trabalho? Está claro que não. A zorra é apenas adorável,, não quer dizer que aquilo que adoramos tenha existência eterna, apenas porque adoramos. A lógica não é instrumento. Ela é o contrário de um instrumento, ela é feitiçaria pura. Quero dizer, feitiçaria, prática de feitos. A lógica nos permite fazer apenas uma coisa, que é constatar o alógico. Mas isso não é pouca coisa. O conceito de LOCALIZAR poderia ser invocado para reduzir o problema a um lugar, mas não há para a lógica diferença DE LUGAR, o que há é diferença de posição em relação a este pondo de vista, a própria lógica, sendo que a existência de QUALQUER ponto de vista, a existência de perspectiva, a existência de UMA perspectiva, mas de qualquer uma mesmo, é o próprio feito feiticeiro, ou não provável, apenas comprovável.

          “Devem-se depreender corpos escuros próximos do sol”.

            O problema é que, como toda a arte, não se pode falar de instrumento. A música seria o único instrumento para tocar música. O violão é uma teoria musical que explora problemas diferentes do piano por exemplo. É claro que se poderia dizer que a música é justamente uma só para piano e violão. O problema é que ainda não se teria dito a respeito do que é então, o violão e o piano para a música. Mas alguém poderia, sendo músico, aceitar que já que a música não é instrumento para nada a não ser para si mesma, ela não serve para nada e está então condenada a desaparecer da face da tera? Agora imaginemos um músico zeloso do seu afeto, mas um tanto confiante demais, a aceitar que mesmo que a música não sirva para mais nada, servindo para si mesma ela estaria justamente servindo ADEQUADAMENTE, e portanto teria legitimado sua razão de existir. Mas se ele fosse não somente confiante, mas imaginativo também, ele poderia completar seu raciocínio do seguinte modo: se ela serve ADEQUADAMENTE e legitima sua razão de existir, então terá que se encontrar na existência. Ora, para se encontrar na existência, ela deve ter assegurado uma composição implícita com tudo o mais que existe. Deste modo a música não teria apenas legitimado a sua existência, ela teria também se tornado necessária nesta existência, logo necessária moralmente a tudo o que existe. Música para as plantas, que fazem BEM e que fazem MAL. Quanto à plausibilidade do projeto é garantantida pelo fato de conseguirmos convencer o público de que há uma música imoral, aquela que trai o princípio da legitimação da própria música. Com efeito, à força de terem acreditado no PERIGO que encerra a condição de ilegítimo, só podem interessar-se pelas condições das coisas, ofuscando a própria coisa. Mas sem depreender daí uma teoria da independência do objeto. Queremos apenas perguntar se a dependência do sujeito não o força a divinizar o objeto. Com iso todos já concordaram, podem replicar alguns. É verdade que já concordaram, mas esqueceram de desdivinizá-las. Como a lógica, por exemplo, que nunca podia ter esperado ser praticada como “a disputa da condição de existência”, e isso justamente quando se identifica a lógica a “apenas” um instrumento. Ou seja, DESPOTENCIALIZAÇÃO DA LÓGICA como arte da perspectiva. Mas este dever não tem nada de implicação lógica. É um imperativo que ordena, e não há nada mais estúpido, em lógica, do que, dada uma série, isolar-se um membro como o “primeiro”, o “fundamental”, porque não se pode estabelecer um corte numa série, esperando ter assim extraído um objeto (um membro) mas de outro modo, todo o corte na série (e toda extração de um membro) já supõe uma nova série com a qual converge a primeira. Ou dito de outro modo não se acrescenta nada ao que existe, mas também nada se lhe subtai e no entanto, algo é criado. Repito: a criação é a gênese da perspectiva, quando esta se encontra liberada. Então ela se difundirá nas frentes de aparecimento, e aparecerá, mas nunca aparecerá sozinha, embora também nunca venha a aparecer senão como A Solidão.

 

             Movimento completo de reversão, a lógica como arte e lógica como instrumento? Pelo menos, a determinação de um acontecimento curioso: passamos a ter professores de lógica, que também eram nossos professores de moral, que também o eram de metafísica. Agora a lógica estava sendo mesmo praticada por aí, como um instrumetno. E todo lógico que não era professor (ou pelo menos não era ENQUANTO lógico), pôde acompanhar a lógica da evolução dos fatos. A lógica como prática moral produziu um tão intenso desejo e, propriamente NECESSIDADE, de catástrofe, que seus seguidores depois de se sentirem obrigados a destruir a crença em destruições em que ninguém mais acreditava, foram igualmente conduzidos a instrumentalizarem uma promessa real de destruição. E começamos a falar de destruição, mas apenas como um velho pretexto para “preservar a natureza”.

                   É claro que não se pode falar de forma nesse reino da lógica supramoral, mas apenas porque aqui pode se falar de tudo o que se gosta de ser dito. Gosto de falar de formas, mas é importante notar que não se trata também de voltar ao singular puro, extraído a duras penas, o objeto real, etc. etc.
 
         O singular é que as formas aparecem. As formas estão no reino do deleite, ou da mistura. O nada não é uma ideia confortadora, porque ninguém precisa mais de conforto num mundo que é puramente questão de confortos conjugados. Então, é preciso que apareçam algumas ideias desconfortáveis pelo menos, mas não para fazerem você se mexer. Tanto que você só se mexe quando quer, ou como se aprecia dizer, PORQUE quer. Considero trocar um "porque" por um "quando" uma tarefa fácil. Como por exemplo, subverter a ordem estabelecida. Realmente, fácil até o enjôo. Neste caso de catástrofe se viu isso, com as siglas, e a paz das bombas. Do enjôo ao desespero. Mas que é isso de esperança de síntese, futuro? Nada disso. Voltamos para o enjôo, após o desespero, e iremos para o desespero, antes ou depois do enjôo, de modo que o que você vê como enjôo e o que você vê como desespero constituem algo muito fino, tão fino quanto O MAIS FINO POSSÍVEL, porque as coisas tendem para dentro, mas vivem para fora. Então em dado momento você não saberia mais se vivia apenas com enjôo, ou se estava completamente desesperado. Espere. Completamente parece uma palavra importante. Porque é justamente completamente nos dois sentidos, quer dizer, nem enjôo, nem desespero, quando encontramos um enjôo e um desespero, ou então, completamente enjôo, e nada de desespero. Isto é, a época atual, quando caiu o muro, e o Rokn'roll era a única forma possível de comemoração, quando a mesma geração cronológica (mas evidentemente, uma nuvem de gerações) absorveu os seus mais queridos estigmas, quando a sociedade resolver dizer “é verdade”. Para falar a verdade, eles me enchem o saco. O que é que você não está pensando, querido? Em que é que você não está pensando?

                O problema aparente, é que as formas, ou reino do deleite e da mistura, não estão um no outro, como se eu falasse em diversas séries como eixos. Não se pode confundir série com e xo, simplesmente porque se você localiza a série está se encontrando no eixo. Mas onde é que você está se encontrando? No encontro dos eixos, nunca neles mesmos. Logo você localiza as séries.

               O problema atinge as séries, corretamente, se pudesse haver uma leitura do eixo. E isso é muito fácil,. O olhar tornando-se um veículo. As coisas perderam a importância.

           Provisoriamen

      dor como fundamento

      tão fundo na consciência

     Veja bem, você não mais faz parte da alternativa, do jogo

 

te

 

e conscientemente, instituído, cuja alternância são

 

do enjôo e do desespero


Mas por que a dor repete

r

ia, se ela não está de modo algum sendo sentida?

 
           É claro que há miséria nos países pobres... (como o brasileiro aprecia a copa do mundo), mas justamente o que não estamos dispostos a fazer é alterar isso.

 
          A Guerra das Siglas me parece ser a tumultuada relação entre aquilo que é dotado de fronteiras e aquilo que não é. O existente é dotado de fronteira, mas há algo que parece passar através da própria existêcia.

          Eu concordo que podem ser reacionários, mas e daí? O que se pode fazer para diferenciar a essa altura, de revolução para movimento revolucionário? O próprio movimento, o bar clandestino de todas as esquinas, o bar proibido de todas as favelas, é reacionário, mas nessas “bocas” o narcótico é o manejo das armas, o cheiro de pólvora, se bem que hoje em dia tudo esteja se aperfeiçoando e se peudo-complicando. Os instrumentos, quer dizer, de revolução, neste caso “nehuma”. Nas “bocas” rola informação para todo o lado. Bombeia-se informação pseudo-indicativa.

            É uma lógica legal, essa: o que está só vai ficar de um jeito: Outro. Agora, o pior, é que fica mesmo, bicho. Falando gíria, quero dizer. Eu considero impróprio de uma prosa erudita, como admiro os gregos, mas estou recheada de belas gírias fervilhantes na minha cabeça. Preciso de informação em forma de palavras, porque preciso delas em minhas batidas cardíacas. Então, como todo o mundo, eu fabrico uma cena, uma cena que pode acontecer, entre as gírias. Mas eu estou... Em outra alternativa, quer dizer, terceira e/ou reticências: sou uma correspondente de guerra. Mas não foi preciso voar para nenhum outro lugar do noticiário palestino, porque todo o mundo mora na Palestina. Imagine a Palestina com tudo o que você tem. Mas é claro que então a Palestina não devia ser outra. Ela só pode ser o que ela é, etc. Cara, desloque este etc. É claro que se perde convergência e escala, e é tolice dizer que não se fabrica coisas assim, mas eu compreendo profundamente antiético censurar-se o que as pessoas ingerem.

             Claro que não posso, justamente por isso, esperar que alguém seja ético. Mas é justamente o caso, de moral, e a moral não admite, nem poderia admitir, que houvesse uma influência externa na hora em que a mistura está sendo feita. Não tem "ABSOLUTAMENTE” nada a ver com crença NENHUMA, e é isso justamente o que pode me fazer apta a fazer o que eu tenho eu mesma que fazer. Profissionalmente, quero dizer, sem NENHUMA operação sacerdotal. Eu não quero ser pregadora de nada, porque só o poderia ser de moral. E na moral, serei livre atiradora como um cientista, qualquer, embora não admitindo “espírito científico”, ou a compreensão imediata é uma exigência APENAS teórica, mas não existe nada apenas teórico.

           A guerra das quadrilhas nas gangs não é tão mortífera, ou tão interessante do ponto de vista jornalístico porque igualmente não tão interessante politicamente quanto a questão árabe, ou as rebeliões chinesas, ou mesmo, a reunificação alemã, que aponta para uma nova paz, que já não será a das bombas, vamos voltar a viver o sonho do contrato, mesmo que já o tenhamos refutado, vamos tomar hoje o que era veneno ontem, e hoje o que será? E o Rockn'rol derrubou o muro... Mas uma justificativa para o meu trabalho, queria dizer justamente por assim ser considerado, não há ninguém que faça esse trabalho teórico simples de examinar pessoalmente, embora a prática de TODO correspondente de guerra o faz necessariamente lidar diretamente com o risco da guerra.

           Já temos jornalistas por todos os lugares, e pelo menos jornalistas formados e laureados pelas academias instituídas. Eu não sou contra coisa nenhuma que viva sobre a terra. E jornalistas daqueles que se poderia considerar verdadeiros, e que sendo assim poderiam julgar falso correpondente, não credenciado, legalmente. Ao que eu respondo que não conheço faculdade em universidade nenhuma, simplesmente, porque as próprias disciplinas agora são os dados problemáticos, inteiramente inseridos no problema. Que envolve o trabalho jornalístico, sou uma correpondende de uma guerra que eu me eximo de considerar justa ou injusta, mas que tem aspectos inacreditáveis. Ela está infiltrada no cotidiano mas só habita as páginas de jornal na seção policial. É uma história que abarca também toda uma pesquisa genealógica, é claro, não do passado, mas deste presente, que se poderia considerar filosoficamente o MESMO que qualquer outro presente.

             O romance do terrorismo de Doris Lessing, "A sobrevivente", apenas me revelou o que eu testemunho todos os dias nas ruas. Porque é ali que está, o mundo. Mas não sou a personagem de "A sobrevivente". O mundo das gírias que eu estudo, as siglas, a boca, o bar clandestino, narcóticos, tráfico, Rockn-roll, pouco vejo o noticiário porque em princípio estão todos errados. Mas eles não são o meu problema. Eu os entendo milenarmente. Eles só se preocupam com sequestro, está multiplicado um fenômeno que já aconteceu no outro mundo do desespero, na década de setenta, quando também havia muitas notícias de sequestro no Brasil, mas sabemos que havia terrorismo no Brasil naquela época, e hoje o ignoramos novamente, com toda a complacência possível. O que denota acordo, de cuja especificade, só o olhar adequado.

           Absolutamente NÃO. Replicar-se-ia. Denota acordo que justamente TODO O MUNDO FAZ QUESTÃO de entender, e de estar entendido.

            Pode-se dizer que a tarefa, aquela a que me dedico apenas pela óbvia razão de compreender sua existência como tafera, ou métier, como só os franceses sabem dizer, e é o sentido que precisamente quero dar, é absurda. Precisamente, fale como paranóico, segundo Rosset, quer dizer, ele não fala exatamente isso, ele fala pessimista (e pessimistas falam "Precisamente'). Assim como, também se pode citar a feliz expressão de Huysman: “Eu não me importo com a mentira, mas detesto a imprecisão”. Mas não considero eu mesma minha tarefa como absurda, e nesse caso Rosset concordaria que deixo de falar como pessimista. Logo, NUNCA falei como pessimista. Apenas, as universidades não dispõe do curso que eu precisaria. Na verdade, estudo o dia inteiro se querem saber. Sou uma cientista de tempo integral. Dizem que Madame Cury também o era. Apenas indagamos que minha experiência se refere ao próprio saber, e assim, este termo é o próprio objeto do saber? Não, não, a epistemologia estava antes, ela sempre está antes, de quando se resolve “induzir”, para falar como os cientistas.

              A tarefa é um TEXTO, é a correspondeência da Guerra das Siglas para QUALQUER jornal que publique, mas nenhum deles poderia se interessar por esse material, porque eu não sou jornalista, como eu dizia, eu não sou jornalista, embora, num sentido, o trabalho de campo da reportagem (mas como é isso impossível de conceber... um trabalho que já não fosse de campo), pudesse precisar de uma tal prática, e efetivamente precisa. Logo, precisa de sua teoria. Mas também pode ser por outro lado denominada pesquisa histórica, mas de novo não adiante pensar em institutos porque isto não se estuda de modo algum em faculdade de história.Sim, eu concordo que é uma bizarrice. Mas deixa de ser, quando se pensa e se afirma, que também poderíamos adaptar aspectos de física, de filosofia, de psicanálise – mas acaso me pretendo um gênio? Tanto se me dá que essa pergunta seja respondida positiva ou negativamente. Mas também não estou fazendo uma digressão. Talvez fosse possível entender, se eu dissesse que NUNCA PODERIA digredir, que não se pode, embora se pense que isso é sua condição de sobrevivência.

                 Superioridade e inferioridade também são termos indiferentes. Quem é mais corajoso, justo, honesto, etc. Etc. Todo o mundo é honesto, contra sua vontade, de modo que fazer de alguém desonesto é uma realidade impensável para mim. Assim como é, por enquanto, universitarizar o meu discurso, meu saber, a minha prática. Claro que eu gostaria, afinal de contas, de apreciar as críticas do único modo que APRECIAR é possível. O mundo nada está encarregado de dizer de mim, mas eu só digo dele. É claro que é o MEU trabalho de edição. Mas não há critérios em jogo, se não o jogo dos próprios critérios.

  ( Histórias da clandestinidade)

                       Sentimos muito informar que o papel está acabando. Foi isso que disseram na Diversões & Presentes. Que vou fazer agora? É proibido ficar parado e os pretorianos estão incontroláveis. Bem, o jeito é você dar uma passadinha na Alimentação que eles arrumam alguma coisa pra você comer.

               Todo dia, ou quase, eu acordo muito bem disposta. Chamos a isso efeito manhã do meio dia, porque naturalmente isso acontece quando acordo por volta dessa hora tão poética. Mas há dias em que o carro dos pretorianos liga a sirene. Então é preciso acordar cedo e ir na cela rolante junto com novescentos milhões de pessoas que supostamente também vão trabalhar todo o dia.

               Por isso pensei em experimentar ir trabalhar todo o dia. Mas não quero estragar o meu fígado, por isso escolhi um emprego que funciona de uma às cinco. Assim mesmo que os pretorianos tenham a audácia de me parar (o que não seria muito comum já que estou disfarçada de estudante superióloga) eles constatariam que eu sou mesmo superióloga e estou a serviço oficial (o que quer dizer que eu devo continuar cumprindo a minha obrigação de não fazer nada).

           Ontem recebi o formulário da faculdade. Aí está: como poderei acordar ao meio dia se para ser estudante superióloga, e esse é um ótimo disfarce, eu tenho MESMO que ir todo o dia à faculdade porque estou na fase educacional I, aquela que ensina Direitos e Deveres I, II, III e IV?

            Assim eles me pegaram bonitinho. Já esgotei os recursos de parada complementar, o que de modo algum foi algo totalmente positivo, porque com isso ganhei o primeiro x. Mais de tres e você está sendo pesquisado por alguém, da unidade dos Psíquico & Físicos.

             Eu tenho dinheiro, mas estou usando muito isso ultimamente e é perigoso, uma vez que eles acabam reparando que eu não uso passes. Na época as ideias estavam escassas e raras, e por isso eu pensei que fosse uma boa ideia. E não é que deu certo? Eles me aceitaram. Mas isso só quer dizer que agora é que tem que dar certo. E daria, se não fosse essa norma da faculdade. Além disso eu tenho que dar um jeito de tirar esse x do histórico, e assim, fazer outro Teste Progressivo. Sempre digo: se eles desconfiam de você, deixe que o examinem de alguma forma, pois isso os obriga a escrever os resultados que, claro, vão ser vantajosos para VOCÊ.

             Assim, estamos na estaca zero porque eles já ganharam até aqui, pelos meus cálculos exatamente tres anos obrigatoriamente consecutivos.

                 E na verdade eu estou escrevendo mesmo por causa da volta dos homens de paletó, leia-se desta vez departamento universitário, tendo sido tanto tempo necessário, e não se sabe ainda quanto, além disso as experiências de perder o nome, a deambulação, as clarividências do puro sentido, asism como o próprio conceito de clandestinidade enquanto perda do nome e não necessariamente ideia política fixa, digamos, uma política flexível.

 
          Antes dos homens voltarem, estive imersa num mundo de substância, e eles voltaram sem romper a imersão e o mundo, se tudo isso tem que se abrir como um fecho eclair abre e fecha...

          Estou imersa num mundo de substância. Eu mesma sou também uma substância, jogada no meio de outras, mas não há nenhuma igual, e seria impossível imaginar um mar, um acordo, porque seria impossível imaginar qualquer continuidade, a não ser se aí estivesse implícita TODA continuidade. Um mar que não se poderia fazer porque não se poderia somar uma onda a outra, uma partícula de movimento com outra partícula de movimento. Só existem movimentos contrários, mas de que modo seriam contrários a não ser numa perspectiva que é em si mesma cega, não pode se enxergar porque só pode enxergar, ver, e não pode se ver. Não posso me ver como se estivesse me sentindo, talvez eu me sinta. Tudo é duvidoso. Mas eu só posso ver. Isso quer dizer alguma coisa importante, eu sei, mas agora ainda não. Agora, eu estou no mundo da substância, e não há nenhuma coisa que pudesse ser agrupada com outra coisa na mesma palavra, mesmo que a palavra seja substância. Eu mesma sou uma coisa, é aqui que estou parada agora, e por isso não quero o importante. Eu mesma sou uma coisa.

                     O mundo substantivo. É esse o nome do lugar. Aqui o importante é o papel, mas o papel não é nada além do que vem escrito nele. Mesmo o papel em branco. Só é “em branco” porque vai poder ser escrito. Define-se pela escrita, que define tudo o mais. Se o mundo das coisas me faz uma coisa também a substância é uma definição. O nome, quer dizer. O nome que era a coisa perseguida pelo inimigo das narrativas. Mas não perseguida, antes procurada, porque eu fugia disso. A clandestinidade é a operação pela qual se passa pela experiência de perder o nome. Mas só depois é que você percebe que o nome é o produto do inimigo das narrativas, quer dizer, ele se satisfaz através deles. É como se você deixasse de pagar impostos. O imposto não é a prefeitura, mas a sua própria necessidade. Mas se você deixar de pagar o imposto, é a prefeitura quem executará a sua multa. Executar é a palavra. O inimigo das narrativas é o próprio registro de nomes. Desde que eles estejam ali, o inimigo se converte em aliado. Mas a clandestinidade implica em se fazer passar justamente pela zona proibida. Aquele ANTES da apresentação dos nomes. De modo que sempre se poderá falar DEPOIS. Isto é, o próprio domínio do inimigo de narrativas. O lugar em que ele se instala, como um posto de pedágio. Se quiser passar sem pagar, o que você faz?

                       Eu podia achar qualquer número para designar esta fase, pois as séries de classificação são num número tão imenso que se torna incomensurável. Sim, o inimigo das narrativas pode ser justamente o amigo das narrativas. Porque o que é que estamos ganhando com essa esterilidade? Como sempre, aqui aparece um diagnóstico. Pois estamos na terra dos nomes. Certo, senhor inimigo das narrativas, ESTAMOS nesse domínio. É claro que sairemos dele. Sair e entrar, eis o segredo da terra dos nomes. O segredo da intermitência. Como no caso das coisas. Entre uma e outra, há o silêncio. Vazio, isto é contínuo, no caso do silêncio.

               Mas se você mesmo é uma coisa, não há vazio algum que você possa contemplar, porque você mesmo tem uma propriedade mágica. Chamaremos continuidade a propriedade mágica de uma substância, mas o que queremos mostrar justamente é que todos os termos são provisórios. Uma sacudidela na caixinha de tipos e todas as combinações se refazem, mas não as mesmas. Às vezes aparecerão períodos de ocorrência estatística. Então podemos ver algo. Exatamente, uma perspectiva.

               Aceitamos os termos provisórios porque continuidade desloca a noção de contiguidade. Muito secundariamente, a continguidade estaria no cerne do interesse em tal experiência indutiva, de caráter estocástico. Ms o que estaríamos contemplando seria uma outra realidade, ou ao menos assim se pensa. Mas em sua secundariedade, é a contiguidade e só ela, a condição de possibilidade da experiência. Não só a condição de possibilidade mas o seu próprio êxito, se podemos falar de êxito. Porque ali, nos períodos de ocorrencia estatística, separados dos seus antecessores no tempo por milhares e milhares de cálculos, nestes períodos se desenham formas, ou seja: um gráfico pode ser construído “por cima” do espaço de distribuição de pontos.

                O que caracteriza propriamente a gênese de uma perspectiva. Dessa maneira podemos também localizar melhor o problema do aprendizado, da descoberta, e da invenção. Mas neste momento, tudo o que interessa é a descoberta da coisa, da substância, ou mesmo, do nome. Porque não se tem a menor ideia do que é um nome, a menos que já se tenha passado pelo mundo substantivo. Essa experiência deliciosa, assustadora, logo, fascinante. E vejam, acabamos descobrindo AQUI o inimigo das narrativas. É uma situação engraçada. Há um inimigo que me persegue, mas não a mim. Há algo que eu devia ter, mas que não tenho. O que torna tudo tão especial é justamente que ele me persegue porque eu não tenho o que ele quer, por outro lado ele tem assegurada as passagens da narrativa, que é aquilo que eu quero. Mas também não é ele quem as tem. Ele aspenas as ocupa. Não é de modo algum uma questão de espaço, mas de anti-espaço ou espaço de passagem. Logo eu, como perseguida, estou na verdade guerreando, mas também não pelo que o inimigo tem, mas pelo que ele não tem.

              Pois é, tudo acaba assim, fantasmagórico e burlesco, no mundo substantivo. É de todo o modo diverso do que foi o Ano Mil. Outra experiência. Eu pensei que houvesse sido outra experiência, mas o Professor tentou me convencer de que isso era um equívoco.

             O Ano Mil. Comecei a sonhar com letras de alfabetos desconhecidos, e às vezes havia alguém que as desfilava num quadro negro, enfileiradas em frases, como numa classe de alfabetização. Eram lindas. Pelo menos davam a impressão de um trabalho imensamente delicado, cada uma das letras, mas a mão que as traçava desenhava um movimento suave, rápido, encantador. Depois o sonho ficou turvo, quer dizer, não o que eu estava sonhando. O sonhar é que se turvou. Aqueles sonhos era justamente caracterizados por uma edição perfeita, cristalina, e tinham a estranha propriedade de parecer não terem terminado nunca. É justamente como se não terminassem porque o mundo aparecia diferente quando eu acordava. Conservava um aspecto cristalino, mas parecia estar ocorrendo ao mesmo tempo que o sonho que não terminava. Só que eu não estava ali quando acordava, e sim no mundo em que eu vivia o meu estar acordado. Parecia justamente que tudo poderia ser descrito por um aspecto espacial. Dormir e/ou acordar, era uma questão de deslocamento. E todo deslocamento só pode produzir um espaço. A questão do deslocamento no tempo não deve ser colocada aqui. Seria simplificar algo por demais complexo, como o tempo. Uma faceta de sua complexidade é que ele é eternamente espacializável.

           Mas o caso é que depois dessa série de sonhos com escritas, passou-se uma série turva, o que equivale a uma não-série, uma vez que tudo o que acontece é caótico demais para constituir uma lembrança.

             Não duvidamos de que ISTO precisamente é a informação, mas para que a informação PASSE, ou que um sonho aconteça desta forma ou de outra, é preciso que as contiguidades estabelecidas sejam pertinentes. O problema da pertinência seria aqui fundamental, se a realidade do que passa não fosse justamente um caráter de impertinência própria daquilo que vem ao nosso encontro, um livro, um sonho, uma pessoa, etc. Períodos de sonhos turvos, e de súbito eu compreendi de uma maneira desconhecida até então, de compreender, eu compreendi como é que compreendia.

              Uma teoria, seria a única palavra lógica. Mas não é possível fazer uma teoria de todas as palavras do mundo. Conhece-se o argumento do lançamento. Mas há mais: contra toda crença, quando compreendi pude ver claramente o quanto compreender não importava de modo algum. Não é que não importava metafisicamente, ou moralmente (toda metafísica é uma moral), é que não adiantava, no sentido costumeiro da expressão, que corresponde a servir, ser utilizável. Já era difícil sustentar que havia alguma coisa não utilizável em mim mesma para mim mesma, quanto mais que essa coisa fosse justamente a compreensão.

             Não mais na experiência do Ano Mil, é certo que aqui as coisas são incrivelmente diferentes, no mundo subs (o nome é comprido, portanto abreviável). Aqui tudo o que é possível é descrever. Mas como é que deveria acontecer algo assim? Eu que me iniciei nas técnicas clandestinas, eu que recebi elogios e aprovações e ajudas incalculáveis, eu que precorri essas rotas, e justamente as rotas onde estavam todas as circunstâncias favoráveis, eu que as inaugurei. A tudo isso se pode chamar a experiência de perder o nome. Sim, é doloroso e terrível. Mas é a suportabilidade que o torna irresistível.

           No entanto, o segredo das minhas rotas. Isto é, havia um segredo nas rotas. É que elas mesmas formam o gráfico. Não havia mais gráfico, porém. Porque justamente é não estar onde estamos. O Ano Mil tinha formado um novo gráfico. E eu pensei que a questão do inimigo das narrativas estava superada.

           Ele é o recenseador das coordenadas, certo, mas só aparece entre DOIS eixos, o que constitui apenas UM gráfico. Sem o peso dos nomes não nos pode acontecer de  passar pelo pedágio do inimigo das narrativas, porque neste outro gráfico não há pedágio. Perder o nome também é assustador como perder os sentimentos. O que se torna com uma afetividade que se torna tão cruel? Mas de uma crueldade extremamente piedosa, uma crueldade consigo mesmo, quero dizer. Mas uma crueldade EXTREMA. A ânsia pela extremidade é uma manifestação semelhante àquela do nenem que quer aprender a engatinhar, andar, sair do seu próprio lugar, ocupar propriamente um espaço infinitamente maior, para falar figuradamente. Crescer. É sempre cercado de nervosismo, como a irritação de uma gengiva onde um dente está para romper.

              Sim, mas o Ano Mil era uma base algébrica, não uma rota, mas uma outra região da rota, como alguém que nunca saiu do Brasil, em comparação com outro alguém que nunca saiu do Chile. Um novo grávido, a descoberta de outra coisa.

          Cair no mundo Substantivo não foi mal, nem bem. Foi apenas algo mais do que parar. Tudo isso tem um sentido decisivo para mim, e veja, afinal eu posso seguir a minha própria linha de raciocínio, e assim seria completamente lógico agora, investigar se, então, o mundo substantivo também não é uma questão de eixos. O problema da lógica é sempre a imaginação. É isso que a faz tão absorvente. Porque imaginação e afetividade estão ligados. O que acontece quando não estão mais, ou pelo menos, não necessariamente?

               O Ano Mil virou uma ficção. Não que antes fosse mais ou menos real. É que antes ele não era passado. O problema do mundo subs não é de eixos, na medida em que se há eixos eles são escorregadios, e se há portas, elas abrem e fecham loucamente, e em algumas está escrito entrada e em outras está escrito saída, mas isso é uma abstração. Nada está escrito no mundo dos nomes porque aqui, tudo é. Se há um caráter alienante no mundo dos nomes? Mas se a sua característica principal é de já estar tudo alienado, não sobrou uma única mercadoria para vender e já depositamos todo o dinheiro na conta bancária. O problema é que isso aconteceu com todo o mundo. Por isso, este mundo é apaixonante, irresistível. Sim, você fica muito alegre, muito feliz, mas não há nada fora da rotina. Você pode qualquer coisa. Parecia que eu sabia Antes, mas não há realmente, antes. O mundo de agora? Não sei. Em todo o caso o professor manda um bilhete:

"Neste momento é continuar ou nunca mais dizer

O mistério do um e do múltiplo

O Poder do silêncio

Ler”

 

               Ler? Eu devorava livros, mas também o meu apetite aumentou imensamente, apetite propriamente, incluindo livros, mas principalmente em relação a comida. Eu comia várias vezes. Talvez fosse isso afinal de contas que fizesse diferença, eu pensava enquanto comia, essa coisa simples e idiota que é comer. COMPLETAMENTE idiota. Eu lia e comia. Quer dizer, isso está acontecendo agora. Muito mesmo. Então para designar o acontecimento usa-se classificar a perspectiva, que quer dizer: eu agora me sinto transformada num binômio. Ou comer e ler, ou dormir e sonhar, ou tocar e cantar. Temos na verdade apenas tres termos algébricos e para reduzi-los basta apresentar o princípio mais simples da ramificação: ou lemer, ou sormir, ou cocar. Ainda bem que pelo menos se pode voltar para o mesmo assunto: a cocaína volta. Volta. Volta.

 
                   I – você já ouviu falar em cibernética?


         O que devo responder, meu caro? Ah, sim, ISTO? Eu posso responder qualquer coisa. Repetir isso até o fim, o resultado nascerá de um confronto. Certo, certo, mas isto serve? Sim, serve. Para quê? Para pensar a paz mundial. Soa bacana, a paz mundial. Estamos na época em que o muro caiu. Justamente o que os bravos rapazes dos anos sessenta precisavam. Que demolissem o muro. Para eles constatarem o quando estavam sendo obsessivos. Completamente, quero dizer, enquanto acrecitassem que o que era repetido podia ser uma coisa sã. Justamente não pode, etc. Então o que quero dizer é que as pessoas se tornam obcecadas. Mas não é possível, em última análise, viver, senão obcecado. O gato, por exemplo, é obcecado por ar. Eu sei que devo dizer afetos. Ms não estou ligando se levam ou não a sério. Instituição de gírias só pode ser praticado como um hobby? Não deve haver mais seriedade? Fórmulas matemáticas só são o máximo para quem quer passar no vestibular. Depois disso, consultamos os pitagóricos, etc. O que importa a imprecisão? Importa tudo, na música.

                Bastante surpresos os egiptólogos se calaram. Todos sabiam que era impossível explicar, e todos continuavam se perguntando. O próprio esquema de paranoia infantil. PARANÓIA INFANTIL só ataca adultos, e quando as crianças apresentam esse problema é porque não são mais crianças. Fulano escreve para se conhecer, ou para se entregar a si mesmo. Gozar com os próprios meios, sem depender de ninguém para não estragar. O anticlímax. Mas isso não tem nada a ver com raciocínios infantis. Já então estamos no campo da cibernética.

            Técnicas maquínicas, etc. Em qual foi o texto anterior em que animal e máquina apareciam sob o mesmo contexto de Compreensão & Comunicação? A Arte do comando. Mas vejam que engraçado, quando então é justamente quando não se está mais “comandando”. Na aparência nada pode predominar sem que tudo já esteja na ótica “natural”.

              Escrever como se não estivesse escrevendo. E se estiver tudo errado? Sigo modelos mas não tenho força para continuar por muito tempo seguindo o que quer que seja. Uma colcha de retalhos de modelos diferentes como cristianismo e revolução. Agora o silêncio. Não sei a próxima nota. Estou confusa como se perdesse a unidade. Sei quantos dias tem uma hora. Morrendo? O que foi que tu fizeste, querida? Eu não tenho remorsos. Eu não tenho culpa. Culpa e medo rondam pela casa. Eles estão procurando alguém, para obcecar. Sofro de leve, o que é pior que um problema. Sofro sem esperança. Esperança é uma boa estrela, um amigo repentino, aprender a deixar de fumar cigarro careta, esperança é queijo com doce de leite, com proteína, eu quero a proteína. Rir é a melhor solução. Mas eu perdi a esperança de que exista solução, só existe a solidão, com ou sem alegria. Alegria. Experimente alegria. Hoje em dia é perigoso. O bar clandestino está violento.

                Bar da rua (*). Depois de procurar por trinta favelas durante aproximadamente três horas, descobri que quarta-feira não é dia de vender o narcótico específico, etc., mas todos são unânimes afirmar que o bar da rua (*) estava funcionando, vamos lá. Na minha cabeça passaram-se muito poucos minutos. Repentinamente eu estava andando. E repetindo um mantra ininterrupto:

     Eu vou conseguir

     Eu quero conseguir

     Eu preciso conseguir

              Rua **. Praça ***. Não tinha NENHUM bar clandestino lá. Era triste. Fui saindo da favela, mas num último instante, perguntei a alguém. POSITIVO. Só que agora, o nome do lugar era outro, e ficava num outro lugar, muitos e muitos degraus pra lá para depois, etc., o lugar era completamente maluco, malocado, cheio de malocas e malucos, crianças e mulheres e bêbados e velhas. Todos passeando os seus olhos esbugalhados pela rua sem destino, a rua que é como uma taba, de índios refugiados.

             Mas ainda era a mesma favela. Os moradores se reconhecem, e pelo olhar elas se comunicam. Todos tão nervosos. Eu me sinto uma mulher sozinha. Janis Joplin. Tenho guardadas coisas durante muitos anos. Estou procurando um lugar, chamado de não piedade. Pois é. Não há muito com quem conversar nesta parte do planeta. Estenderam um muro à nossa volta, e não acreditem quando lhe disserem que ele caiu. Conheço a América Latina. Qual é a relação disto tudo? Uma soma? Eu estou farta de somar. Considere o tédio como o constituinte universal do luxo e do conforto.

         Na favela NINGUÉM sente tédio, porque ninguém tem tempo pra isso. A população está acuada entre as duas extremidades percorridas pelo comércio de armamentos. Um comércio que passa pelas guerras e movimentos armados no mundo inteiro que servem como uma indicação para o fluxo do dinheiro. É tudo MUITO estúpido. Mas o que é que vamos fazer? Vestir camisas grafadas de silk e pedir a paz? Mas a paz nesse caso significa rendição. A GUERRA DA INDÚSTRIA DE ARMAMENTOS É CONTRA A GUERRA DA FOME. Quero dizer, o único perseguido pelas armas é o espoliado dos alimentos. ELE é o marginal. Então o que é que faz o espoliado? Ele se casa, e fica respeitado pela comunidade, daí em diante, está garantido o braço operário, mas no Brasil não há operários, aqui só temos sujeitos equivocados.

            A guerra da fome é a nossa parte. Artistas, professores, donas de casa, lixeiros. Todo o mundo que tem boca.

             Para falar e para comer. Na favela tem artistas, professores, donas de casa, lixeiros. E também tem “boca” ou bar clandestino – como queira designar. Hoje não é quarta-feira. Isso foi há quatro dias atrás. Hoje é domingo e o narcótico acabou novamente.

          Importante, quer dizer, o todo do tempo. O todo da parte. Mas o que é o todo da parte? Aparentemente já compreendemos o todo do tempo. E no entanto, estamos MUITO, mas MUITO longe mesmo de entender.
As máfias convergentes dominantes, com produção de fantasmas atuantes. As máfias são. Mas afastando-se rumo aos anéis circundantes, numa progressão que DESFAZ o caminho obrigatório de círculo. De um círculo a outro até estar completamente fora. Eu estou fora. Mas é preciso que existam MUITOS círculos. Porque ficar fora só de um, isto é satelizar-se.

           Os ídolos do pensamento, segundo Bacon. Muito boas novas, mas pena que estavam incompletas. Naturalmente dispomos de uma mística de conhecimentos progressivos. Mas isto é como estar convencido, do mesmo modo que alguém transfere o seu próprio impulso para algo que está no tempo e não em si. No tempo, nesse caso, também é um ídolo, porque não é assim que o tempo age, porque nada age assim, nem mesmo nós. Fingimos que é muito difícil nos convencer de alguma coisa, e inventamos provas. Mas nada é mais difícil apenas porque é uma tarefa absurda. Nós sempre estivemos convencidos, a ponto de convencionar que justamente ESTA concordância (ou aquela, ou ainda a outra) é a fundamental.

              Não existe nada que possa ser passível de concordância, assim como nada pode ser fundamental sem se ter deslocado de um fundo, o fundo do fundamento. Mas que conto infantil é esse em que o lobo é a Chapeuzinho Vermelho disfarçada?

          Passar a problemas expositíveis. Transcrevo frases com os olhos enfocados. A história da feitiçaria. As fogueiras, as torturas. Não há nada de novo sob o sol, exceto o sol.

            Problemas de distração, o tempo todo. Desorientação geral, cada um está indo prum lado, vejo tudo em expansão, que é que tem? Nada faz sentido – tenho vontade de rir. Mas de algum modo inconcebível, tudo continua irreversivelmente aqui.

           Não é nenhum fator de conversão que está querendo se fazer insinuar, entender, e explicar. Tudo continua aqui. Nada sobra para não continuar. Nada.

          Mas algo passa. Sim, algo sempre passou, e agora passará de novo.

                 O mundo substantivo atual e deslizante. Nesta fina lâmina que refrata as existências passam diversas tonalidades de luz, cores mas não diremos tendências. O real está refratado, mas não que seja único. Nós é que somos múltiplos. Tudo o que passa por esta atualidade, como os caminhos de uma diferença de ponto de vista, desde que sobre a mesma coisa. O importante é existir um teto para que os solos aconteçam, um teto, quero dizer, um fundo. E absolutamente não são o mesmo. Por que há uma moeda, e nãó há nada além do teto porque só há fundo além do fundo. O teto é quando alguém bate com a cabeça na parede, o fundo é de onde estamos sempre emergindo, com essa nossa mesma cabeça.

          A ciência da luz que se processa na obscuridade abençoada dos sonhadores, os loucos contempladores do céu e/ou de pensamentos, como cantores que inventam sons novos, Bellevue – baía de Guanabara, como num porto do mundo.

               O Ano Mil deve ter sido como um fator de relação com o mundo Subs? Houve um desmoronamento. O Ano Mil não estava ali, ou a Inglaterra não estava lá, nem os espanhóis e os portugueses, só o que chamamos Índios estavam lá, mas a própria história os reuniu. Sim, a história os reuniu e obviamente a história é sempre alhures.

               O desmoronamento. Não, o mundo Subs não nasceu de Um, do mesmo modo que nunca reconstrói nada, pelo mesmo motivo simples de nunca ter jamais construído. O que construiriam? No meio do caminho porém, atravessou-se a tarefa, um fator de contestionamento explícito, e nascia perante nossos olhos o mundo subs. O todo o dia e o todo mundismo, etc. Mas ser clandestino é não ter mais nenhuma missão. Ele se contenta com uma tarefa, desde que lhe pareça desejável.

             O mundo subs, e o professor e os séculos que tropeçam uns nos outros. Eu seria como um escritor vagabundo, mas porque tenho por tarefa a ociosidade, quero dizer, a disponibilidade, quero dizer a possibilidade.

           As histórias não podem deixar de ser contadas.

           Cibernética do desvio, clandestinidade com máquina, e os campos de atuação conquistados. A sedução de Mary Joane Luz. Na Praça Bellevue.

 
      
                       Histórias da clandestinidade

 

          O olhar do escritor é sempre apropriativo. São poucos nomes porque na verdade os nomes estão deixando pouco a pouco de valer, na sociedade pós-nada. Então direi que siglei tudo, e aumentei progressivamente e geometricamente, mas também o espaço em volta de mim.

            Estamos cercados de Brasil por todos os lados, e se aqui fosse uma ilha estaríamos cercados de mar por todos os lados, e o Mar seria o encontro do Oceano, em todo o caso o Brasil não é agora mais que uma sigla, recortando uma territorialidade genética que recorta os espaços que eu precorro às vezes, do lado de lá do nome, ou da sigla.

           Escrevendo por causa da volta dos homens de paletó, e como seria curioso e agradável juntar os diferentes tempos, o antes e o depois, o livro I e o livro II, como se assim intensificássemos o espaço em função do preenchimento do tempo. Por causa da volta dos paletós, porque essa volta tem a consequência de um ULTRAPASSAMENTO da loucura, ou o ponto para onde nos remetia Histórias da Clandestinidade, tendo sido tanto tempo necessário e não se sabe ainda quanto.

           Pesquiso agora um projeto intitulado AGENDA DO ESCRITOR. Este projeto deve-se ao requisitado pelos homens de paletó. A minha tarefa é projetar a ocupação do tempo (incluindo cardápios, detalhes do passeio e vestuário, assim como a vida privada) ideal para um escritor. Em primeiro lugar, raciocino, um escritor não tem agenda porque o seu tempo não é compartimentalizável. Então eles disseram que eu podia escrever outra coisa se quisesse, e eu achei que gostaria muito de escrever este livro, e que um escritor faz tudo o que gostaria muito.

            O escritor também é uma potência do falso, o falso é a ficção, lógico, embora sirva para a nomeação dos pensamentos que... não são pensamentos. São muito mais e muito menos. Há uma teoria das vozes. Não do Ditado. Não há ditado nenhum a não ser como ordem. Mas NÃO SE PODE SEGUIR a ordem do ser. Nisso os existencialistas experimentaram à náusea, porque apesar do nada, continuamos a procura. Qu est-ce que tu quète: Je ne quète, je conquéte. O olhar háptico, eles falaram nisso – o termo é de Riegl? Os passarinhos cantam. Reduzirei tudo ao instante. Sou thasher, sou pássaro, uma nova mistura, estranha mistura em minhas veias. NENHUM FINGIMENTO. O olhar háptico não executa tal função, ele toca mas seu uso implica uma transformação acumulativa, uma transformação da ordem do todo, e entre a ordem do todo e a ordem das partes há um abismo REAL.

     As long as we can say away...

           sail

 

         É preciso fazer a convergência. O reino Subs é a falsa representação, e não é que haja verdadeira. Apenas o Reino Subs não pode deixar de ser arrastado num perpétuo redemoinho. A looucura, se quiserem “passagem prisioneiro da”. A verdadeira representação é alarmante. O Brasil, o terceiro mundo, a guerra das siglas, os homens de paletó. Tudo isso tem que se abrir, um ziper que abre e fecha, para um lado e para o outro, são direções de movimento, as equinas são dobradas por pessoas, as ruas estão, os edifícios estão. Havia ESQUINAS na pré-história?

           Fazer a convergência porém implica muito mais do que se possa imaginar. Porque um cotidiano não deve ser falado, deve ser vivido. Quem protagonizaria uma tal agenda, se ela inclui tão raras atividades, e tão escolhidas? Mas eis o princípio dos Cadernos, sendo revirados. Havia um espaço inocupável e livre em todos os cadernos. Então eu não somente os conquistei, mas os alarguei aos extremos, liberei os diques dos espaços brancos e depois de perder o nome, a forma, o branco se intercalou, para voltar a ser o que ele era, uma possibilidade, entre outras.

             Um pequeno passo a mais e o branco ele-próprio volta a cair no seu próprio branco e se institucionalizar. E por outro lado também basta um pequeno passo para o branco romper os novos e preciosos diques. Muito mais do que se possa imaginar. Volta ao vivido? Eu diria viagem ininterrupta, de ida e vinda e voltas e mais voltas, e todo o problema está nas curvas, nos cruzamentos.

          É claro que a operação clandestina de perder o nome não é uma operação legitimamente superficial sem por outro lado afetar o deslocamento em profundidade, possibilitando assim, por exemplo, o mero falar a respeito, ou ainda pensar sobre a profundidade. Para encurtar falaremos de uma visão da multiplicidade irredutível. Porque por um lado ou por outro se chega a isso: todos os fundos são falsos ou criamos para nós mesmos o fundo que nos convém, por todas as necessidades do mundo. Já o sem fundo, dá o caráter irredutível da multiplicidade.

          Mas tudo implica a visão. Pois na medida em que há aquela mudança acumulativa no âmbito do todo, a visão discerne ou pode potencialmente discernir o fundo múltiplo, isto é, as matérias da visão passam a servir de estrutura para a sobreposição de outras sensações materiais ordenadas em campos genéticos de pesquisa, através de TODO esse tempo. Assim, dado a estrutura material do fundo múltiplo visível, passa-se ao exercício da própria desordenação e reordenação daquelas linhas de sensação, a saber: a temperatura (tato) que inclui algo que se descobre trabalhando o quente e o frio. A luminosidade (visão ou estrutura material do fundo múltiplo visível), que se trabalha com as sombras (o dia-noite e intermediários). A altura espacial de sentido (audição) que envolve “alturas” que se ligam ao resto do corpo em níveis diversos de abordagem, produzindo mudanças qualitativas nos movimentos. Não existe a "GRANDE CONJUNTURA”, nenhuma justiça no acaso.

           Estar pontualmente, lavar a louça, alagar uma cozinha suja, bagunçar a bagunça, por aí se inicia a limpeza.
Eu limpo com produtos ecologicamente corretos. Eles limpam com imperativos categóricos, para se passarem por cidadãos de bem. Acho que eles fazem suas faxinas obrigatórias com solventes cancerígenos. Mailler falava do câncer, mas Mailler estava também meio neurótico, com a psicanálise. Neurose câncer-irradiativa.

           Partindo de pontos quebrados. Onde, como, quem, porque. Nunca se chegará ao outra coisa que pontos quebrados. Onde, como, quem, porque. A operação mais arriscada comprou um oráculo manual e adotou os modos do vento. Perder a auto-importância que é tão somente auto-piedade disfarçada. Eu não preciso mais botar aspas porque não é mais necessário nesta década pós cut-up. Wellcome imperceptível parece brotar do asfalto, ou os asfaltos começam a perder terreno. A última guerra das siglas será entre o homem e a natureza. Não entre o homem e a mulher, conforme os teóricos pretenderam. Os filhos da terra insensatos. Até que libertem a terra das fronteiras dos solventes canceríginos. O existente não se encontra nunca na relação continente-conteúdo com a existência, como Devia ser. E a própria existência, ou se desdobra como continente vazio do conteúdo existente, ou se envolve num acontecimento cheio de siglas por todos os lados, são todos os existentes que percorrem as trilhas sigladas, que não encontram nunca a existência, mas encontram sim existentes-siglas, porque desde então, todo o espaço tornou-se patrulhável...

              É isso a clandestinidade. Conheço nuvens, céus, ventos, pássaros. Conheço chuva, raio, trovão, luzes, névoa, tempestade. Conheço flores, ervas, árvores, animais e deuses. Conheço a terra, as rochas, as estrelas, o mar e os precipícios. Conheço a água, os metais e as ilhas. Conheço o fogo, as sombras, os astros e as palavras. E agora, quem precisaria conhecer também O Homem?
                                                                                                        (Eliane Mil)    
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LIVRO 2 / assinando Eliane de Marcelo

           Estamos em dois mil e quatorze, agora. Escrevia em mil novecentos e noventa, quando tinha vinte e seis anos, aquelas coisas que estão aí, acima. Eram tão especiais em relação ao que eu costumava escrever antes, muito antes, desde sempre, desde os cadernos de diários no ginásio, as poesias, etc., etc.  - tanto que inventei a assinatura que consta naquele texto, e só desde então pude adotar pseudônimos.
        Em noventa eu desenvolvera estranhos hábitos, mas coerentes, creio, com estar morando numa Ilha, numa casa muito sugestiva, entre névoas, no cimo de uma colina, com a frente abrindo-se para os abismos. Havia iniciado a vida em comum com o homem com quem eu estava mantendo um relacionamento constante há quatro anos. Morávamos com os pais dele, que habitavam a grande casa da frente, nos apartamentos sobrepostos que ficavam nos fundos. Eu ocupava, conforme me havia sido disponibilizado, o apartamento de cima, à guisa de meus aposentos pessoais, mas a nossa morada se compunha dos dois níveis.

              Eu adorava então habitar o âmago da normalidade, ao acordar aos meio-dias, e na penumbra do quarto fechado sentir, ao mesmo tempo intensa e intimamente, o movimento incomensurável das populações humanas lá fora, em plena ebulição dos seus fazeres, e era importante para meu sentimento que esses fazeres fossem captados como intrinsecamente cotidianos, aquilo que essas populações faziam todos os dias.

             Elas eram imensos conjuntos qualificados, de estudantes, de professores, de atendentes de escritórios, de trocadores de ônibus, de todo mundo e de ninguém. Eram, cada um, um universo organizado, dotado de sentido pleno, e eu existia para constatá-los, testemunhá-los, atestar que a normalidade era vigente pelo fato da vigência desses universos, testemunhar plenamente, com aquela espécie de olho todo-sensível interior.

            E depois, logo depois, o café, o meio-almoço e a máquina de escrever. Ela permitia transportar toda a sensação dos universos, do sentido intrínseco deles e dos seus problemas e dos seus desejos e das suas aspirações, para os meus processos de expressão, do pensamento, da linguagem. Os universos falavam, a máquina transmitia, eu devia apenas permitir, silenciando, e se falava de mim mesma, era como o eu habitante entre os universos.

               Entre a penumbra da alcova e a máquina de escrever, a total vedação do exterior conservava-se intacta o bastante para que a total comunicação do exterior penetrasse o senso íntimo, e somente a verdade fosse o canal de acesso.

             É claro que a qualquer um familiarizado com a literatura da modernidade tudo isso é perfeitamente natural e compreensível. Não sei se a linguagem que então conquistei como meu veículo era realmente original ou não, mas certamente a forma, a proposta, não era, bem pelo contrário, eu procurava como meu objetivo consciente apenas formular a essência dos investimentos da vanguarda modernista e pop arte, já sobejamente conhecida e assimilada pelos historiadores, teóricos e críticos, que então não estavam em antagonismo como depois ocorreu por causa da rubrica “pós-moderno”.

                Mas eu estava justamente naquele momento, tendo contato inicial com a filosofia em geral e com o que se poderia talvez dizer filosofia de vanguarda em particular, os pós-estruturalistas franceses como a gente os chama agora. Eu estava a ponto de começar a faculdade de filosofia, meu marido sendo já professor.

                 Eu não tinha nenhum contato real com o assim designado “bas-fond”. Apenas como todo mundo tive minha fase de “desbunde”, desde oitenta e oito, após um acidente que sofri, “desbunde” que no meu caso, por razões especiais ligadas à circunstâncias da minha vida naquele momento, implicava justamente a maior “deserção do social” possível. Meu marido, cuja devoção são os livros, não comungava esse desbunde. Conservava eu praticamente apenas a amizade do meu irmão mais novo, que frequentava nossa casa e estava no mesmo “desbunde”, mas que hoje já não se encontra entre nós.

                 Também aquela minha fase de “desbunde” tinha passado pouco antes ou por essa mesma época em que ele nos deixou. Eu estava tão careta quanto agora, no dia que soube que o meu irmão morrera atropelado na véspera.

                  Nada disso, nada daquela proposta literária e existencial é possível agora, naquele mesmo plano da sensibilidade. Pois não existem mais conjuntos de população organizados, apenas hordas vorazes, perversamente mentecaptas, imprevisíveis, que assim obviamente não podem ser captadas como habitadas por elementos que, cada um, seria apenas o protagonista do seu fazer intrínseco e constitutivo. Não, o integrante das hordas é, cada um, um paranóico, que só sabe tudo da vida particular do vizinho a quem espiona como um nazista a um judeu, junto com os outros paranóicos, mediada sua espionagem sistemática por aquela outra, a das mídias, que alardeiam seus resultados por forma de slogans cifrados, que cada um reconhece como seu código eletivo a revelia de qualquer contexto, mas sempre resultando na mesma mensagem, um comando de assassinato e um nome de elogio.

               As hordas são protagonistas de linchamento de pessoas inocentes, caluniadas, o meio de propagação de seus atos é a internet, onde passam mensagens de comando de assassinato de pessoas sistematicamente espionadas, e os dois lados são os espionados isolados e as hordas que se fazem e desfazem ao sabor do alvo da vez, mas a cada vez há um uníssono, o nome do elogio que supostamente elas escolhem mas que, na verdade, meramente repetem dentre os slogans disponíveis pela mídia precisamente para esse fim.

              O que ocorreu após a queda do muro, desde a altura de noventa e sete e noventa e oito, não foi qualquer simulação do contrato ou menos ainda o verdadeiro constitucionalismo, mas o neonazismo travestido de neoliberalismo econômico, e que não veio só.

                 Ele veio acompanhado dos cultos de massa fascista-protestantes, um fator aglutinante de hordas além das gangs- efeito da ação de agitadores de mídia, nas telas, na internet, nos out-doors, nos rádios, nos jornais, nas embalagens de produtos, em indivíduos singulares que passam nas ruas vociferando ameaças de morte a espionados, em indivíduos singulares pagos como locutores propagandistas que propagam cifras numéricas codificadas como mensagens de morte nas lojas, os códigos da vida íntima desses espionados que precisam comprar – um número para a aparência desprezada como “feio”, ou como “velho”, ou para suas roupas denotadas como “pobre” ou como “cafona”, ou para a data do seu nascimento, ou para o que quer que seja cotidianamente associável pela mídia, etc.

                  Tudo isso, todos esses agentes, apenas um, o marcketing do imaginário da violência mais extrema que se possa projetar que um indivíduo possa fazer contra outro, todas as formas de ação sádica compõem o imaginário expresso todos os dias por todos os canais da visibilidade. As lojas? Tornam-se sempre mais redutos de neonazistas, de fascistas protestantes, etc. até que exista alguma humanidade que se livre deles.

               Há uma semana soube do caso de uma mulher de meia idade vitimada fatalmente por um linchamento, caluniada como bruxa que comia criancinhas. Escusado dizer “meia idade”, pois este conceito só se preserva entre nós. Na mídia, nas hordas, mulheres só tem duas idades, doze ou setenta.

             A mídia, que teve que registrar esse caso de bestialidade extrema, porque a gang que o arquitetou propagando o retrato dela com a estória caluniosa das criancinhas devoradas, pela internet, atuou de modo demasiado escandaloso, ou porque houve algum interesse incógnito em aplicar as penas da lei. Mas pouco depois a mídia propagou obsessivamente a heroicização de uma jovem - que era "jovem" foi a coisa mais ressaltada nas inúmeras "reportagens" -  porque teria ela evitado o linchamento de um assaltante a mão armada.

            Logo, podemos “sacar” agora, aquilo que se chamava na esquerda “ação direta”, na verdade não era direta, era mediada, ação organizada, pois devia ser atuação visando uma causa, a luta de classes. Já ação direta mesmo é apenas a barbárie qualquer.

            Eu tinha vinte e seis anos, nos anos noventa, mas não tinha qualquer referencial de mim mesma em função de faixa etária. Nós não pensávamos de modo nenhum assim. Não associávamos de modo algum idade pouca com “direitos” políticos ou privilégios de status, mas se o fator se mostrasse de algum modo relevante, parecia-nos apropriado e direito que a precedência fosse dos mais velhos.

              Mas se a idade da mulher agora é tão importante quanto o nível da renda de qualquer um, ou a frequência da igreja fascista por qualquer um, é porque se pode linchar, caluniar, ameaçar, espionar, isolar, por qualquer motivo – e sendo assim compreende-se que, gente dessas sendo obviamente de tão baixo nível intelectivo, o motivo mais imediato para se lançar mão é “feiura”, é aparência física, contudo ninguém informado se surpreende com o fato de que os que mais se preocupam com isso são sobejamente feios e geralmente são gordos.

              Obviamente isso com a “bonita” do elogio podendo ser aquela solteirona até hoje, que a gente tinha conhecido antes como bastante destoante de um certo padrão, e a “feia” sendo aquela pessoa casada hoje e que nunca tinha tido problemas para arranjar namorado até então. Não que para mim isso seja algum critério quanto ao que as pessoas “são”, para gente conscientizada ou meramente honesta nunca foi, mas falando assim de um modo geral como o que poderia ser visado em termos de costume – ah, o que conhecíamos das crônicas de costumes da gente “de bem”... Ou então como o que disse aquele cara na mídia, nem sei quem, li numa revista, referenciado como alguém importante: que todas as outras modelos e atrizes deviam cortar os pulsos dado o fato de estrelato de uma atriz que então era novidade.

          A mídia dos anos dois mil – o Jornal O Globo, antes o Jornal do Brasil, assim como abundantemente a televisão, etc. – fez a escola do neonazismo ressoando como faria um megafone com uma voz débil qualquer sombra da hostilidade de um desses idiotas bestializados contra alguém, tendo por veículo a palavra “feia” - ou a palavra qualquer, ou em última instância, o meramente não coincidir de ser a pessoa do nome do elogio.

                O comportamento odioso das “elites” da mídia desses tempos algum dia se tornará proverbial como o habitus de uma espécie híbrida, bestializada. Pois não há de que mais se orgulhe esse tipo odioso, do que do seu comportamento ostensivamente sádico odioso.

              Eu posso realmente especificar quem fez e como fez, na mídia. E hoje é domingo, gostaria de ressaltar: Eu estou escrevendo que posso, como provavelmente tantos mais podem. Ou informar a produção de retrato falado dos indivíduos das ruas. Ou mostrar números em papeis timbrados.

          Mas só será isso interessante na situação da interlocução com agentes especificamente encarregados de aplicar as penas da lei. Ou as penas do que nós designaríamos aquilo que precisa ser feito. As vítimas e espionados, etc., são as pessoas que não integram gangs de malfeitores institucionalizados no cotidiano, são os que recusam ações socialmente patológicas, são as pessoas com mente sã. Sou pelo Nuremberg. Creio ser preciso restaurar a descrença. A ciência, essa descrença, se auto-criticava permanentemente, e era o paralelo necessário da consciência dos direitos civis, pela qual ninguém sabe realmente o que pertence ao interior dos outros. Nenhuma vanguarda desejava mais iludir, era idiota pretender fazer crer na ficção como a uma fantasia da realidade, pelo contrário, a ficção devia se instaurar somente como tal, mas ela podia ser o que, se nada há fora do real? Era na fímbria do indeterminado dessa resposta – pois cada um sabia que era sua missão arriscá-la por sua conta – que tudo se jogava. E seria natural que para vários de nós a resposta estivesse no caminho de uma ficção tecida exclusivamente pela renúncia de todo fingir.

                 Era dogma praticamente que não havia cultura -sistemas históricos de valores - além de convenções criadas. Não se acreditava que esses sistemas pudessem por si só, na espontaneidade, ser o efeito de uma vontade espontânea do humano pela verdade científica. Era preciso na ciência entender o que, subjacente à normalidade, era também o germe do anormal, do patológico. Era preciso crítica social, ou como dizia Bergman, aquilatar sob as construções convencionais dos valores, o quanto de fascismo suportava por baixo da epiderme uma democracia.

            A ciência se pergunta o que subjaz a uma normalidade. A mídia, ao contrário, pretende inseminar um grão de escândalo e anormalidade sobre tudo o que mostra, a fim de subjugar instantaneamente o olho único redondo
que ela julga ser a tábula rasa do desejo de ver. Ou então, porque o escândalo e a anormalidade estão “lá” apenas para as pessoas pensarem que não estão “aqui”, o mais que ela mostra é o estereótipo. A coisa fixa. Aquilo que é. O grande e único Signo. O pré-significado que não pode ser, além disso, também muitas coisas... Aquilo que não entra em devir de modo algum, x=x, etc.

            Quão ingênuos eram aqueles tempos, quando se pensava que o fascismo, assim como seu congênere, o nazismo, estava vencido para sempre, depois da guerra, e que o que se podia criticar era apenas sub-reptício, não o manifesto no Signo e na parole das instituições. Foi obviamente necessário que se solapasse a educação, que então veiculava a ciência nos meios meios da cultura, através da referencialidade das escolas, dos livros, da pesquisa e da conexão de tudo isso com a valorizada democracia, para que a mídia tivesse se tornado o único canal de cultura, enquanto se persegue e proíbe a heterogeneidade das produções culturais populares além do marcketing de igreja fascista de massa, e se zomba da democracia em todas as salas de aula elitizadas/ fascisticizadas como o que abunda hoje em dia.

               Nessas salas de aula, onde vieram adentrar os novos profissionais que emergiram do neonazismo, o conteúdo é a mídia, não a ciência que aí só pode habitar disfarçada de notícia de jornal ou assunto do filme barato da televisão de ontem, e a relação com o conteúdo não é a saudável crítica do Signo, o honesto falseamento do seu pretensioso fascínio, mas a reverência extrema, das mais abjetas. Enquanto tudo o mais, o ser humano sendo esse tudo o mais, é o alvo que DEVE estar subjugado pelo poder do fascínio.

                Além disso, não é possível agora aquelas experiências porque agora não temos mais máquinas de escrever. Não escrevemos linha após linha, mas o computador é um cursor que salta para qualquer parte do texto a qualquer momento, nós voltamos a linhas quaisquer, preenchemos o que depois de tê-las escrito, em meio já às linhas seguintes, nos vem à cabeça que era uma lacuna, ou porque, muito depois de ter escrito o texto ele mesmo, repensamos como o que poderia ser acrescentado, extensos trechos, etc. Ou mudamos a composição das frases. O que era um se torna vários, ou vice-versa, etc. Além disso, não adianta propor que é um novo experimentalismo porque é um horror o fato que sempre se descobre, o fato de mudarem o que foi escrito ou tirarem trechos, porque o que foi escrito fica no arquivo do computador, na mesma página toda mutável, e se quisermos que transmigre pro papel é preciso pagar muito, muito caro. Tudo o que a mídia pretendeu desde noventa e sete foi fazer as pessoas crerem que eram todas uma só, a fulana piranha filha da puta de tal, primeira ou  última, que se foda, e quem não parecia que tinha acreditado nessa merda idiota pretenderam eles que estava descumprindo alguma regra ontológica e que podia ser fuzilado. Porém não fuzilaram, óbvio, senão não haveria alguém para um dia desses fuzilar.

            E não escrevemos totalmente em nossa intimidade. Não podemos nos eximir por um momento do pensamento de que estamos sendo espionados – pelas mídias, pelos indivíduos, por inimigos... Meu Deus! Quem imaginaria naquela época que eu pudesse vir um dia a ter “inimigos”! Que qualquer pessoa comum o pudesse! Inimigos era o que tinham somente os grandes heróis da história, ou as mocinhas ingênuas protagonistas de novelas de TV quando eram estórias da vitória da boa consciência pequeno burguesa. Inimigos! Isso jamais passava pela minha cabeça.

              Ou sendo espionado por qualquer um. Que estaria julgando, à revelia de se a gente está endereçando uma mensagem ou não para o besta. Julgando porém, sabendo ele que não, como se fosse possível julgar se estivéssemos. Como qualquer um que nos visse independente da gente ter ido ao encontro, ou não, mas nos julgasse como alguém que nos espera encontrar julgaria, ao encontrar. Qualquer critério de juízo nessas condições é meramente uma cavilação. Assim como poderia ser uma cavilação, espionarem para roubar, plagiar, etc. Ou ainda, “mexer” no texto sem que a gente saiba, como já demonstrei que fazem na conta da Internet – onde publiquei vários livros naquele espaço do “blog spot”. (pra onde estou transcrevendo agora, enquanto reviso, e aposto que não tinha tantos erros de tipografia)

               Estamos pois num meio de desonestidade instituída pelos mais recônditos interstícios do maldito jogo.

              Todos já sabiam de “computadores” antes, mas não era algo que todos tivéssemos, e eu não imaginava que fosse assim, de modo nenhum.

              Não obstante o senso íntimo se restaura, por vezes, automaticamente. Ou então há uma decisão profunda da gente ignorar a contingência, se quer escrever. É quando percebo que devo, ao invés de deixar expressar o semeado em mim como a planta inteira do sadismo, apenas desenvolver ainda mais, até o extremo, o “pouco se me dá” – portanto, agora com relação a todo meu até então suposto “semelhante”. Pensava eu antigamente que esta era uma atitude de esnobe, como o “estou pouco me lixando” de Lacan, mas na verdade como percebo agora, nós estamos nos tornando seres absolutamente solipsistas, nós que não integramos a mutação do híbrido bestializado.

            Perante o que julgamos uma verdade científica, não se age por dever. É meramente assim, como quando alguém que deseja molhar as mãos não pensa que é seu dever as por debaixo de uma torneira aberta. Mas o religioso nunca atina com isso. Ele está o tempo todo apenas pondo as mãos debaixo das torneiras, mas não sabe o que faz, só tem uma mente obstinada na fantasia do que Deve fazer. (creiam que há uns meses, constatei que na faetec de quintino botaram uma placa enorme escrito "continue obedecendo fielmente as leis de trânsito).

          Mas também não é “ele” o objeto da fantasia, senão “todo mundo”, o mundo que se projeta doravante apenas dessa fantasia do Dever na mente dele, mundo real ocultado, recalcado, tornado porém não simplesmente desaparecido, de modo nenhum. O mundo recalcado tem que estar aí na forma do objeto da derrisão, da mutilação, da tortura, da fogueira.

                  Li recentemente um texto sobre o culto de Kuan Yin, a “deusa da compaixão” oriental, eternamente doce e rósea, mas o ocidental que o escreveu me pareceu meio tendencioso. Narrou ele que visitando o templo da deusa no Oriente, mesmo sendo um intelectual descrente teve um êxtase e uma visão em que ele indagava como poderia conhecê-la e ela respondera que ele não a encontraria na aparência, nem no vazio, mas somente na mente dele mesmo. Mas como a que a deusa oriental falaria algo como “mente”? Talvez se fosse “espírito” ou “alma”... Estou pouco me lixando para a “mente”. Não tenho “mente”. Essa coisa separada de não sei que mais.

                  A gente, cansada da “mente” ocidental, tem um trabalhão daqueles para se livrar dela com o zen e a “doutrina da não-mente”, o satori, o tao, etc., - ou como poderiam falar, o “cérebro/corpo” ou o “há”, ou o “devir”, ou o “não-há”, etc. ou até a "mente natural", etc. -  e obviamente uma expressão é irredutível aos seus termos, e então, volta ao oriente e descobre isso de que is in your mind at all... Francamente, inaceitável – não porque tenha algum preconceito com palavras específicas. Não sofro da doença universitária. Eu tento sempre entender a conotação. Mas que conotação de “mente” a gente poderia entender depois de tanta disciplina da não-mente, etc?

             Ou então, tentar entender o sentimento. Claro que nos ambientes mundanos é impossível. Eles só falam por constantes esnobes, como numa grade de teste interessada somente em se a “gente” cumpre os requisitos – neste caso, esqueça a conotação habitual de “gente”.

                     Conhecer “O Homem”, como escrevi alhures... Quem pode conhecer o que não é um “isso”? Lemos a bíblia, por exemplo. Depois que ficou tão claro o neonazismo, lá pelos quase dois mil, quando meu irmão ficou tão estigmatizado que morreu seis dias depois da passagem do milênio, voltei a ler a bíblia da infância. Interessava-me então o mito dos judeus. Eu tinha já desistido da faculdade, e depois da experiência do reino subs, veio a experiência da faculdade, mas depois desta estabeleceu-se a que se insinuara “nos poros” da experiência da faculdade, ou seja, o fascínio irresistível do DESISTIR. Eu desistia, como se pode constatar pelo texto acima, percentualmente, aos poucos, desde o começo, e antes do começo, desde o vestibular, depois de ter DESISTIDO já antes, de uma desistência bastante incentivada pela discência indecente das faculdades burras, etc... - epíteto que não fui eu quem inventou para elas, mas também professoras delas que eu conheci e que viviam estigmatizadas pelas burras, etc.

            Quando “desistir” tornou-se a palavra encantada do meu vocabulário programático, então as coisas já estavam bem mais adiantadas no plano dos estudos de humanidades, e até então, antes da filosofia, eu não conhecia estudos de humanidades, exceto “literatura”. A gente era educado para alcandorar a física, e ter uns lampejos intuitivos quanto à importância da biologia, contudo só justificável esta por parecer sempre mais ou menos mediada pela química mais predominante na nossa mente por ser mais redutível a uma espécie de física, dado que tudo nesse mundo devia reduzir-se à matemática -  porém não qualquer e sim somente aquela que serve à física.

            Meu contato com humanidades, antes da faculdade, estava restrito a um único nome, o de Marx. Outros nomes foram agregados apenas por que tinha o hábito de ler qualquer coisa que me viesse às mãos, mas todos os nomes só entravam como de algum modo conexos ao pensamento de Marx.

            É isso. Porém não estou disposta agora a adentrar o gênero autobiografia, para expor sobre as especificidades do antes e do depois que importam somente ao agora – se bem que existem, e até porque autobiografia resulta num confronto muito direto com os espiões, envolvendo inclusive, é claro, exposição de outras pessoas a quem eu faria referência, e que não pretendo comprometer, não obstante o que possa ser a minha necessidade de escrever sobre a memória, etc., uma vez que não temos máquina de escrever Registro portanto aqui o ponto a que chegou a desfaçatez da indústria capitalística..

                Então li a bíblia, lá pelos noventa e sete e depois, conjugando com o retorno de uma fé cristã que eu tinha muito viva na infância, e depois por um período lá nos meios da adolescência, o interesse pelos mitos dos judeus que até então ficaram na sombra, obnubilados por Mircea Eliade, o Anti-Édipo, e Carlos Castañeda sendo o tempo todo fascinado pelas astúcias performáticas de don Juan, confundindo pensamento com ação de modo que os argumentos filosóficos de don Juan estavam sempre certos mas porque suas demonstrações eram sempre feitiços mirabolantes, botando a perder o bom-senso e a física, para transformar tudo em qualquer coisa.

                 Estes, entre outros referenciais antropológicos ou quase-antropológicos. O interesse pelos mitos dos judeus, junto com o retorno da minha fé, aplicava-se desta vez à veleidade de que podia assim, apelando a Deus, salvar o meu pobre irmão. Essa fé agora ia no rumo dos judeus, em vez do catolicismo ou protestantismo, o descanso dos judeus, as promessas aos judeus...

            O que não efetivou-se, como se sabe, e ele, que se chamava David, foi enterrado num Sábado.

          Na bíblia o que a gente vê? Que o Deus tudo pode, e tudo faz, ele brame e ruge contra os homens insensatos, ele pode mover as montanhas abaixo contra eles, pode queimar suas aldeias e entregá-los aos inimigos, pode crivá-los de doenças, pode tornar todos famintos, e sobretudo estabelecer que para Deus nada é impossível. Não me detenho nas contrafacções de filósofos pró ou contra a tese da não-impossibilidade, mas apenas notar isto: na bíblia Deus pode tudo mas não pode mudar a natureza do homem. Ele os castiga o quanto quer, vezes sem conta, mas não consegue mudar o coração deles.

           E depois vem o Cristo, que aparentemente, percebeu precisamente isto e mudou precisamente isto. Mas o que vemos então? Que nada mudou, que logo os homens estavam se matando para fazer instituir, cada um, um Cristo por sua própria conta, e nem mesmo quando ficou um só afinal instituído foi o inferno recolhido para debaixo da terra ao invés de continuar disseminado sobre ela, porque então o Cristo instituído passou a perseguir sob o pretexto da heresia, da bruxaria, ou meramente de que mais se lhe viesse à cabeça, mas na lista dos dizimáveis pelo instituído cristão, figurou principalmente os próprios judeus.

                Perseguir, torturar e matar – e nem mesmo meramente eliminar de um só golpe indolor.

               O “Cristo” continua fazendo a mesma coisa hoje em dia, e há alguns anos estava fazendo isso institucionalizado pelo governo no Brasil e na América Latina, o Cristo agora é o Jesus Coca Cola Cristo, dos USA e do marcketing, sob o pretexto de dizimar o “comunismo”, passe-partout para qualquer coisa de que os cristos americanos cheios da gaita que roubaram do mundo inteiro, ou o vulgo seu representante local, queiram se livrar.

               Está bem que assim a gente não consegue entender patavina, quanto mais O Homem. Vamos tentar de outro jeito. Por exemplo, poderíamos perguntar o que um homem pensa quando escreve sobre o potlach, o costume de um povo “primitivo”, lá dos USA de antes dos ingleses. Ele faz vez que esse costume só pode existir numa sociedade onde já está instituída diferenciação de status, pois denota hábitos de consumação suntuosos.

              O potlach é um quebra-quebra de objetos preciosos, que um grupo de prestígio de status tem a obrigação de possuir. Quanto mais preciosos os objetos destruídos na festa do potlach, para a qual se convida evidentemente todo o mundo para ver, mais chances tem o fazedor do potlach em angariar com ele mais prestígio de status na sociedade. Mas se angariou mesmo, só vai o fazedor saber depois que outros potlachs se seguirem, e as pessoas tiverem decidido qual ou quais dentre eles eram realmente suntuosos, em comparação uns com os outros.

                  Ora, escreve o estudioso que entre os bens destruídos nos potlachs podiam eventualmente constar escravos.

                  Que pensa ele quando escreve isso?

                 Podemos pensar que ele se exime de sofrer o espanto mais radical de si para consigo, uma vez que pudesse raciocinar em termos evolucionistas. Já não se fazem coisas aberrantes assim hoje em dia. Ao contrário, ele procura justificar a sociedade “primitiva”, lembrando que hoje em dia justamente se fazem coisas piores porque em escala incomensuravelmente maior, tal como inventar bombas atômicas e todo tipo de dispositivo para assegurar a riqueza das minorias às custas da miséria das maiorias.

                  E ele conserva aquele inequívoco tom humanista, tal que a gente deve sentir ser essa leitura edificante, por que assim estamos nós compreendendo a humanidade, e talvez por trás desse estilo estivesse a máxima de que tout comprendre c'est tout pardonner. Mas se a gente for por aí perdoando tudo, a justiça se esfumaça de qualquer possibilidade pensável por nós mesmos. Creio eu. Isso é de se ficar confuso. Realmente. Mas as instituições estando sãs, a gente pensa, ça va sans dire. A justiça se faz, as coisas continuam nos eixos, todos em seus lugares, etc.

          Além disso, a defesa dos primitivos é que eles são burros e por isso é que nunca foram inventar a bomba atômica.  E quem quer a justiça?   A gente realmente não pensa nisso. Para alguns que argumentaram algo recentemente, a gente não pensar nisso implica que a noção de eu emerge só se a gente se pega numa situação em que está obrigada a pensar. Se a pessoa fosse o escravo, por exemplo.

            Para mim, o que emerge assim não é obviamente a noção de eu, naquela acepção do que se incorpora aos potlachs, bombas atômicas, nazistas ou adoradores da informática que procedem como se não se tratasse de logomarca industrial movida a dinheiro & consciência extorquida das pessoas, mas de Deus baixado pelo download.
                      Mas sim a clandestinidade, precisamente o quase-contrário, um outro eu que desdefine a substancialidade ou a redefine como o imilitado, Deus! como Aristóteles era burro! E os estoicos também! porque não creio que a adesão muito humana ao divertimento do homem que é subjugar o outro homem, ou a adesão qualquer ao que o homem faz em coletividade, seja simplesmente o contrário do eu, como alguma ação automática, uma coletividade interna, etc. - tudo isso que me parece um contrassenso se pensado, mas que não é bem pensado, é somente dito.

                   Não, o que ocorre é que muitos homens não aderem ao divertimento humano de subjugação do homem, mas o divertimento é que implica o recalque do eu em função de uma monomania do Dever ser se tornar o deleite do julgar, pelo que é levantada, suprassumida, a espessura entre o eu e o outro. Mas os que não aderem deixam de integrar o veículo, o divertimento, o “Homem”. Eles se tornam clandestinos. Eles só tem agora, o próprio eu. Esse eu lhes foi devolvido, portanto, como a sua sanidade. Mas que insensato seria ver nisso algum meio de progresso! Que coisa mais velha pode existir do que aquilo que sempre fomos?

                Esta é a minha fórmula da clandestinidade atual. Antes, pelo contrário, a fórmula continua um elemento de solidariedade humanística em torno da noção de tarefa, sempre ancorada mais geralmente na stimmung da observação crítico-científica .

           A gente é conduzido quase que naturalmente a pensar que deve ter havido alguma contradição, e que se a definíssemos, compreenderíamos porque o devir se revelou tão imprevisível. Isso é ainda uma ingenuidade.

              O devir devia ser imprevisível. Mas porque foi como foi – e não de outro jeito qualquer? Está aí mais um dos nossos círculos. O que eu quero dizer é que havia mesmo talvez uma contradição nisso pelo que desde os tempos de Nietzsche para diante, ninguém mais acreditava na ciência como verdade dos fatos ao invés de linguagem autônoma, e o último avatar da metafísica da verdade ontológico-factual, todos concordavam, havia sido o cientificismo positivista. Era urgente a tarefa de salvar Marx dessa pecha epocal.

                Bem, em todo caso, vejamos que se a ciência é uma linguagem autônoma entre as inúmeras linguagens autônomas, isso devia conduzir a uma revolução pós-ocidental. Não necessariamente pós-epistemológica, porque é muito difícil decidir se as linguagens não são – todas e cada uma delas – uma posição de saber possível. A gente devia acordar e pensar que a imaginação poderia ser o antídoto ao Poder. A imaginação, porém, estava do lado de lá da “linguagem” qualquer. Porque isso era o ocidente, a descoberta da linguagem como qualquer do qualquer. O equívoco fôra tamanho que se propagava a bobagem de “a imaginação no poder”.

              O antídoto do poder é o eu, o singular nesse eu, o intotalizável do nosso saber que não forma um saber tal que o meu recalca o seu. A minha perspectiva não é a sua, apenas isso. Mas assim linguagem não é simbólico – universal. Não é um círculo – hermenêutico. Não é qualquer coisa que se possa definir, além do que ocorre em mim, em você. A gente devia se conhecer. A gente devia se ouvir uns aos outros, quando a gente endereça ao que supõe ser a compreensão dos outros, aquilo que queremos expressar como o que descobrimos. Mas não podemos, presentemente. Não podemos.

                   Estamos nessa do computador e de hordas, nessa de horror ou então, de inscape à Hopkins – ninguém escapa de algum dos Cristos – estamos nessa. Só o que podemos.

             Naquela fórmula anterior a ciência tinha uma relação com a espinafração da política – porque ela havia se tornado uma rede de malhas tão amplas que os maiores peixes passavam através dela, como dizia Deleuze para casos assim, de total inadequação de um discurso ao seu objeto. A política era o que o desbunde vislumbrava, nas ruas, o próprio fato do desbunde ser clandestino na acepção comum -não a que eu utilizo conceitualmente - de ser simplesmente ilegal, ainda que naquela época essa ilegalidade fosse objeto apenas de chacota de todo mundo, até mesmo da polícia. Todo mundo pensava nisso como uma bobagem, não havia repressão ostensiva.

                Mas é claro, havia o fato da ilegalidade, que me irritava, e sobretudo o fato de que quando se discutia politicamente isso, ou seja, a sério para descriminalizar na lei, todo mundo podia discutir, menos os interessados: quem vende, quem compra e quem produz. Onde já se viu uma discussão em nível de lei na qual os interessados são somente aqueles que não podem participar? Onde já se viu até mesmo um tribunal onde o réu não tem defesa, nem pode apresentar nenhuma? Isso é CRETINO. Isso é “Cristão”. Isso é fascismo, neonazismo made in CIA.

                Pra eles açambarcarem dinheiro, controle político, mesmerização via mídia, etc. ou apenas porque são CRETINOS.

            As leis existem como regulações setorizadas de condutas setorizadas, portanto são regulações que dependem da exposição de motivos por parte dos interessados, que somente conhecem os meandros subjacentes às condutas. Não todos os meandros são conhecidos por todos os interessados, e é por isso que precisa haver lei. Para um interessado poder ter regulada sua relação com o outro, cada um no seu nível de interesse conforme competência da sua relação com o fenômeno do qual se trata. Além disso, a lei não funciona, como obviamente se vê. Portanto diferença nenhuma vai haver se houver descriminalização - exceto que muuitas fortunas vão deixar de estar na ilegalidade, para o bem dos  impostos públicos, e que os hospitais cuidarão dos poucos que precisarem.

                E o que eu pensava era que meu material, como eu chamava na verdade apenas vagas observações não tanto do ambiente social quanto do estado de espírito do observador clandestino, era similar ao que devia ser interessante publicar como a perspectiva de alguém interessado. Claro que não publicam essas coisas nos jornais – só publicam o discurso dos que supostamente falam “sobre”, como conservadores, médicos, políticos, charlatões, cristãos fanáticos, etc.

                Mas quem somos nós, que não cultivamos hábitos suntuosos de potlach, nem fabricamos bombas, nem fingimos que entendemos tudo isso? Quem somos nós que pensamos desse modo a lei? Por que essa pergunta soaria impossível de se responder postas assim as coisas, é que eu precisei do conceito de clandestinidade – Lembrem-se. Mas clandestinos não são os agentes introdutores da mentalidade constitucional neste mundo. Ou são? Seria interessante lembrar a essa altura que o meu grande filósofo, pai de todo o liberalismo político & constitucionalidade previsível neste mundo, o Locke,  foi um clandestino. Ele precisou de um nome falso, e ficar num país estrangeiro, até que a porcaria dos Stuarts hobbesianos se danassem. A Inglaterra, quando ele voltou, tornou-se o espelho da racionalidade universal à qual se deveram as futuras Revoluções, no todo ou em parte.

             A história não deve ser uma barafunda, se a gente cultiva alguma perspectiva. Para descomplicar ao máximo, lembrem-se também da relação que estabeleci entre a clandestinidade e a época histórica do constitucionalismo conexo às vanguardas, não obstante o quanto estes podiam ser críticos daquele, uma vez que subjacente à época toda como sua armação constitutiva estava a permanente auto-crítica.

            O importante da descoberta do Homem é que Ele pouco entende da sua Ciência. As ciências humanas não são como a física, nem como a química, tem só um pouco a ver com a biologia, nada com a matemática, e lógica só se for a perspectiva. Poucos entendem o que são as humanities, porque pensam que toda ciência é do fato = x – seria idiota negar que os geógrafos, salvo as exceções de casos difíceis, não tem muito porque discutir se aquilo que está ali é ou não uma montanha. Nem imaginam os telespectadores que nas humanities isso não funciona. O objeto é problema do teórico demonstrar que existe, porque só tomamos conhecimento da “coisa” depois de ele ter lhe dado um nome e formulado o seu conceito. Há tantas histórias quanto historiadores. Há tantas antropologias quanto antropólogos. Etc. A ciência da história é conhecer quantos mais historiadores pudermos, a da antropologia é saber as tantas que andam existindo, mas sem muita convicção de que alguém esgotou a lista. Contentem-se em proceder por amostragem. Ou seja, notem que a lista não é assim tão infindável, se vocês podem notar que muitos destes que dizem que produziram um conceito na verdade apenas estão utilizando o de outro já produzido, trocando o nomezinho e parafraseando as definições com sinônimos.

            A própria lista é problemática e precisa de um teórico que dê um conceito a ela. Eu, por exemplo, penso que a lista é histórica. Os historiadores, antropólogos, sociólogos, teóricos da literatura, psicólogos, etc., não proliferam por aí a esmo. Eles vem aos grupinhos, e tem sempre uma ideia geral sobre o que é que estão fazendo, ainda que o quente seja que cada um vai produzir uma interpretação própria dessa ideia geral, e ideia que muda conforme os grupinhos, que são aglutinados de tempos em tempos, a lista é Histórica, e a ideia tem a ver com tudo o mais do tempo – ETC.

          Uma dominante supra-histórica supra-temporal, como a mente, ou a salvação, ou a propriedade privada, etc., não existe, mas sim uma dominante planetária que recentemente – há uns quinhentos anos – vem se instituindo, o que eu designei geoegologia, o que pode ser traduzido em termos gerais como a minha interpretação do IMPERIALISMO (vulgo, a safadeza cristã- “ocidental”, da qual todos os outros credos vem se reclamando, depois, de serem os verdadeiros promotores).

             A ideia geral por trás da geoegologia é: há tantas humanidades quanto há “homens” (= homens e mulheres e crianças e trans-sexuais, e astronautas, e mutantes, e ...). Mas isso não implica que não se possa notar que muitos desses “homens” apenas estão repetindo uma mesma prescrição de “humanidade”. E que essa multiplicidade não tem nada a ver com a priori, é perspectiva.

                          “Muitos” homens são “doentes” por terem se deixado REDUZIR a uma mesma fórmula. Mas na verdade se deixaram mesmo? Eles convencionam que sim, e no entanto, não podem deixar de serem “outros”.

               E agora, o que está? Estou vendo se posso reorganizar o conceito de clandestinidade, o que implica ser necessário alguma experiência. A essa altura, em termos literários, só poderia ser a meta-experiência de registrar as Histórias da Clandestinidade naquela época escritas, para... Vaga sempre essa questão da propositividade, em se tratando das experiências da clandestinidade. Em todo caso, registrando. Ficam registradas, ficam retomadas, ou apenas... Não sei ao certo. Há um interesse nisso. Pode ser que depois eu possa entender qual. Mas naquela época tudo o que eu repetia era que não havia interesse algum. Nenhum de sobra.

                  Pode ser que tenha a ver com fugir da teoria, ou tentar não me deixar imergir de todo só na teoria, ou não sei. Ou continuando a ser humano e evitando reduzir-me e a O Homem somente no “objeto” da ciência, mesmo que essa ciência que os cientistas não-humanos, os telespectadores, a mídia, o capitalismo, o senso-comum, o desespero, as falsas certezas, etc., perverteriam, ou pela clandestinidade ipso facto, ou por alguma praxis transformadora, ou?

                 Nesse ínterim eu desenvolvi vários interesses. Ou então estou fingindo, mas não sei. Na ficção, os textos que reuni em Contos do Espelho. Na teoria, o meu conceito de leitura histórica pós-ocidental que designei “geoegologia”, ao mesmo tempo refletindo minha interlocução e minha ruptura com o pós-estruturalismo, e está por enquanto publicado apenas em dois livros teóricos, mas em geral minha produção teórica já está com vários livros por publicar e estou botando tudo em blogs. E depois houve um gênero “irado” de prosa, que está intitulado “Contos da musa irada”. Os dois livros de “contos” estão publicados. Ainda que não conste registro na "memória social" que eu conheça. Todos esses interesses foram desenvolvidos já nesse terceiro milênio, e continuo produzindo. Agora estou com vários textos teóricos em andamento, mas especialmente elaborando o que enfoca um retorno a Marx.

                   Pode ser que o meu interesse em voltar aos escritos da clandestinidade tenha algo a ver com temperar um pouco a prosa “irada” - por exemplo, eu diria, não tenho mente, quero que a “mente” - o racionalismo - se foda, etc. Dói na gente, se quer saber. Escrever assim.

            Pode ser que esse sentimento não seja a literatura, ele existiria em todo caso, e se expressaria de outro modo, se não se expressasse literariamente, se é que se expressa de fato assim. A literatura são suas leis, etc., eu concordo plenamente. Mas a gente sente.

                    Aqueles escritos dos anos noventa eram tão de outro modo, tão halciônicos, eu não tinha raiva nenhuma, eu não tinha isso, eu tinha a ideia da humanidade, uma espécie de harmonia interior, etc – pois é, o etc. é sintomático já de um pós, de uma gozação, aquilo que ficou lá, e tal, & sem paciência nenhuma, e reduzindo tudo a uma espécie de cálculo, um sinal algébrico, o que significa exatamente a lacuna que está aí, la breche, etc. E pode ser que ainda esteja aqui, eu penso, eu tento, quem sabe?

 

              Mas eu não sei como transcrever. Deve ter havido uma progressão na soltura das expectativas. O primeiro texto, propriamente intitulado “histórias da clandestinidade”, não está no mesmo nível de alguns outros, e eles todos são muito desiguais. Convergem para essa soltura, que naturalmente se espalha em torno de acontecimentos traumáticos, esquecimentos, confrontos, novas obrigatoriedades, novas explorações, mais ou menos opressivas, e resistências... O que chamo de expectativas. Os gêneros de linguagem? O que eu conhecia antes. As coisas e as pessoas. A atuação com base nas expectativas. O sentido. Ao invés, era apenas a descrição pura, ou a informação pura, ou a história lá fora, ou a política sem conceito, a espera do conceituar, ou o pensamento onipresente. Onipresença miseravelmente indeslocável entre o imperativo e a boa-vontade.

                  Não sei como transcrever, obviamente não significando que não sei como copiar do papel. Por trás da descrição pura das horas vazias de isolamento conspícuo e que pretendia não ser mais que voluntário – e provavelmente não o era – reconheço traços de lembranças tristes, reconheço como estavam marcando as frases aparentemente sem relação com elas, e que pretendiam tê-las, justamente, despedido, desenfocado, destituído de valor de afetação qualquer. Não sei porque copiar aquelas referências cifradas, que provavelmente fizeram uma progressão precisa, a série exata da sua ordem expressiva, expressão atrás de expressão, como numa arquitetônica dos dados inaceitáveis, e então depois eles estavam aceitos, ou inoperantes para efeitos de anulação de mais ações almejadas, como agora. A série exata resultando neste agora...

                      Parece não interessar absolutamente. O que é absolutamente interessante é que justamente, tudo girava em torno do descarte do interesse – como do interessante. A argamassa das expectativas. Histórias da clandestinidade, o título, é por demais pesado. Penso em selecionar com maior vagar... Sinto inevitavelmente que aquilo era muito mais corajoso e honesto. Hesito muito e não sei o que fazer.
    
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        Aproveito este espaço para registro :  Meu retorno a Marx

                     Primeiro há um trajeto, e depois outro, conforme duas universidades, que já estão retraçados para dois parágrafos relativamente pequenos. Mas aqui a subsequência:
                 Se conforme Habemas o valor e a argumentação se tornam oponíveis de modo que o primeiro não precisa ser universal mas se o segundo é, então há moral porque a ética trnasida do conteúdo do valor variável à forma argumentativa da pretensão de validez,  e assim do relativo cultural ao absoluto verdadeiro, resta que a decisão pelo que há argumentação transpôs assim a cisão aristotélica de noesis essencial e phrônesis humanística. A qual hoje seria estabelecida com alcance não funcionalista-oligárquico-aristotélico, na cisão epistemológica de ciências naturais e humanas. Porém a ultrapassagem foi proposta sem haver para a orientação platônica da unidade sem cisão,  nada além do critério obviamente relativo e valorante do "melhor".

                    O valor só poderia ter uma base argumentativa que o transcendesse enquanto  ideologia  da base material, mas então estaria explicada a própria argumentação como vontade. Pois não é necessário que o valor para mim (ou para nós) tenha que se tornar valor para você (ou para eles) sem qualquer interesse ulterior envolvido. Mas o que se deve compreender é então a base material que o transforma nesse vetor da coação alheia. E não o interesse em simplesmente afirmar ou negar valor de validez ao "valor" cultural, o significado em que se crê ou descrê, o  que seria algo como o "terceiro homem" do idealismo socrático-platônico assim como já o havia contraditado Aristóteles.

            Na história creio ser facilmente demonstrável que religiões, costumes e demais formas de adesão valorativa não são por si mesmos veículos de guerras ou de quaisquer uso de argumentação para se impor a outros, até que sejam vistos como pretextos para interesses de domínio que vem de motivos ulteriores a eles, motivos portanto  materiais nesse sentido de  não explicados pelo  conteúdo do valor que se quer pretensamente impor. Se o interesse da base material restar indiferente, crenças e religiões coexistem na tolerância mais pacífica e a argumentação transita para a obtenção da legalidade como meios de expressão da tolerância visada agora em prol dos direitos da cidadania ou da humanidade. O estado de coisas pacífico da tolerância se encontra em muitos exemplos histórico-antropológicos, não apenas na "modernidade ocidental".
              Mas a teoria de Habermas não permite distinguir os dois "valores" a que pode servir a argumentação.

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