AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA
AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA
Histórias da clandestinidade
AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA
Histórias da clandestinidade
Eliane de Marcelo
Você está fantasiando. Faz leituras alucinatórias,
como alguém que romantiza o próprio estado de espírito, ou até mesmo suas
sensações corporais. É madrugada, e eu estou acordada, desperta de um sono
interrompido às duas em ponto por algum alarme interno totalmente destituído de
ressonância externa. Todos os dias, ultimamente. Eu penso, e acendo um cigarro.
Mas antes que o pensamento se estabilize e as palavras formem filas, quase
mesmo antes de acordar, o olho divisava uma cadeira emergindo da escuridão, com
todas as bugigangas que se encontravam atulhadas em cima dela, sim, eu as
divisava, na escuridão uma por uma, e como era possível? Havia uma luz
destacada que tornava tudo na cadeira absolutamente visível, mas não havia luz
externa, o clássico Noir das graffic-novels, só que vivido pelo próprio olho.
Bem, você está fantasiando isto, eu comecei, e a imagem destacada desapareceu,
a escuridão voltou a ficar contínua, as palavras se completaram e agora já
fumamos todo o cigarro. Fantasiando ou não, estou vivendo uma vida
incompreensível por todos os modos, e não me sinto semelhante a pessoa alguma
sobre a terra. Quer dizer na realidade que eu perdi a diferença em relação a
tudo o mais. Não é um processo de identificação o que ocorre, porque nada
ocorre. Eu mesma não ocorro. Onde isso está acontecendo, eu pergunto? Estou deitada,
vidrada, espalhada e fixada na cama, como uma pedra ao solo. Nada poderia ser
feito, então nada se faz. Mas tudo isso passa porque acordo todas as vezes em
que o meio dia ou a uma da tarde se aproxima. Estudei a escuridão com os olhos
até amanhecer. Como qualquer profissional orgulhoso da sua tarefa, eu acordo às
duas da tarde e fico todo o resto do dia lendo a história da literatura, da
máfia e da ciência da dedução.
Máscaras, é claro. Isto é... Meu amigo, nada se repete. Como está ficando tão desprovido do gosto, quer dizer interesse. Seria uma questão de fora e dentro, mas o caso é que não tenho tempo de ficar demonstrando as coisas, porque para cada demonstração precisariam ser lidas umas duzentas e cinquenta obras no mínimo (e no máximo quatrocentas. Daí pra diante é um professor, mas passando do milhar, você é um clandestino).
Procurem os seus labirintos, eu vos digo. Porque eu
descobri a soma total.
Bar clandestino na rua (*). Estou assim. Legal. A lua
mais bonita da minha vida. A mais bonita lua anterior estava de madrugada.
Agora era o crepúsculo.
o
Operações
sintáticas são novas sínteses?
Meu caro, você sabe que isso é impossível. Mas todos
nós sabemos tudo. Eu acho diferente. Compreende, porque você e eu achamos, e
qual é o valor de achar? É preciso porém, ter certeza para operar o paciente,
do contrário as mães das vítimas nos condenariam à morte, se tivessem os
poderes para tal. Tornando grave inconveniente a distinção de uma colocação
honorífica. Sendo assim, criam-se sistemas de métodos de leitura.
Uma viagem, pois é. Lá voltamos nós.
Estou na minha cadeira azul de transmissão, recepção e
passagem. Quer dizer que eu trabalho com informações? É um modo muito engraçado
de colocar a coisa. É o mesmo que um gravador dizer para uma vitrola somos
feitos da mesma energia. É o mesmo que, eu queria dizer, outra coisa e mais
outra, e mais outra ainda, e tudo vai ficando tremendamente possível, mostramos
finalmente a necessidade da nossa intervenção, possível o que acontece, por
isso, aquilo NÃO PODE acontecer, a impunidade, etc. Etc. E uma França como
reduto da consciência, falando a linguagem da Nova Consciência, e louvando os
poetas do Rock, França, Itália, Portugal, Espanha, México, Brasil, Colômbia,
Venezuela, Estados Unidos, mas vocês não podem ter esquecido o oriente.
É para lá que as pessoas olham quando querem alguma
coisa, etc. Etc.
O tempo, etc. etc.
O corpo, etc. etc.
Mas você devia se fundamentar, meu rapaz, para poder
dizer o que quer impunemente. Trazer para casa, isto é, caçar. Narcótico e
instrumentos musicais. O baixo acompanha a música por dentro, quero dizer, Ave
blues e Rock'nroll. Temos escritores cosmopolitas que até sabem de música e
medicina no modernismo. O modernismo me dá vontade de ser Punk. A revolução
estava aqui e ali, como sempre, e alguns se aproveitaram dese expediente,
deveras interessante de dispor de homens obesos.
Capítulo
É verdade que sempre estamos falando da mesma coisa.
Reclama-se fases mais íntimas. Como assim, você é quem afinal?
Inimigos de Narrativas, mas o que é uma narrativa? Oh,
querido, estamos contando o tempo na tua cabeça. Alteramos teu curso,
inserimo-nos no planejamento da reta. E é tão simples que você queira tudo o
que eu posso te dar. O inimigo é aquele que impede, ou aquele que obriga a
aparecer?
Há é claro, a sessão dos fotogramas. São imagens
mentais que nos ocorre depois do décimo milhar... Pedaços de melodia começam a
se infiltrar na passagem das nuvens. Tons inusitados de cor são percebidos ao
crepúsculo. Uma teoria do reflexo. Bem, estamos em mil novescentos e noventa.
Ninguém está lembrando do ano DOIS mil. Olhando daqui é como uma coisa na
frente daquilo que está à frente, portanto não interessável no momento. Por
outro lado, absolutamente toda a comunidade de informação neste planeta está
empenhada em uma tarefa.
Quem são esses, que não haviam aparecido na história?
Bem, vamos falar da primeira classe. Mas como assim, classes? No sentido de
conjunto, em termos de igualdade da propriedade entre os elementos, partilhada
portanto, a propriedade. Porque toda a tarefa está codificada no departamento
de informações e tudo o que importa é esse código, que uma vez partilhado por
todos, nós o teremos como sistemas negativos, e produziremos sempre uma
resposta ao SEU argumento, de modo que o colocaremos em oposição ao nosso, e por
conseguinte tudo é hierarquizável.
Capítulo
“Devem-se depreender corpos escuros próximos do sol”.
O problema é que, como toda a arte, não se pode falar
de instrumento. A música seria o único instrumento para tocar música. O violão
é uma teoria musical que explora problemas diferentes do piano por exemplo. É
claro que se poderia dizer que a música é justamente uma só para piano e
violão. O problema é que ainda não se teria dito a respeito do que é então, o
violão e o piano para a música. Mas alguém poderia, sendo músico, aceitar que
já que a música não é instrumento para nada a não ser para si mesma, ela não
serve para nada e está então condenada a desaparecer da face da tera? Agora
imaginemos um músico zeloso do seu afeto, mas um tanto confiante demais, a
aceitar que mesmo que a música não sirva para mais nada, servindo para si mesma
ela estaria justamente servindo ADEQUADAMENTE, e portanto teria legitimado sua
razão de existir. Mas se ele fosse não somente confiante, mas imaginativo
também, ele poderia completar seu raciocínio do seguinte modo: se ela serve
ADEQUADAMENTE e legitima sua razão de existir, então terá que se encontrar na
existência. Ora, para se encontrar na existência, ela deve ter assegurado uma
composição implícita com tudo o mais que existe. Deste modo a música não teria
apenas legitimado a sua existência, ela teria também se tornado necessária
nesta existência, logo necessária moralmente a tudo o que existe. Música para
as plantas, que fazem BEM e que fazem MAL. Quanto à plausibilidade do projeto é
garantantida pelo fato de conseguirmos convencer o público de que há uma música
imoral, aquela que trai o princípio da legitimação da própria música. Com
efeito, à força de terem acreditado no PERIGO que encerra a condição de
ilegítimo, só podem interessar-se pelas condições das coisas, ofuscando a
própria coisa. Mas sem depreender daí uma teoria da independência do objeto.
Queremos apenas perguntar se a dependência do sujeito não o força a divinizar o
objeto. Com iso todos já concordaram, podem replicar alguns. É verdade que já
concordaram, mas esqueceram de desdivinizá-las. Como a lógica, por exemplo, que
nunca podia ter esperado ser praticada como “a disputa da condição de
existência”, e isso justamente quando se identifica a lógica a “apenas” um
instrumento. Ou seja, DESPOTENCIALIZAÇÃO DA LÓGICA como arte da perspectiva.
Mas este dever não tem nada de implicação lógica. É um imperativo que
ordena, e não há nada mais estúpido, em lógica, do que, dada uma série,
isolar-se um membro como o “primeiro”, o “fundamental”, porque não se pode
estabelecer um corte numa série, esperando ter assim extraído um objeto (um
membro) mas de outro modo, todo o corte na série (e toda extração de um membro)
já supõe uma nova série com a qual converge a primeira. Ou dito de outro modo
não se acrescenta nada ao que existe, mas também nada se lhe subtai e no
entanto, algo é criado. Repito: a criação é a gênese da perspectiva, quando
esta se encontra liberada. Então ela se difundirá nas frentes de aparecimento,
e aparecerá, mas nunca aparecerá sozinha, embora também nunca venha a aparecer
senão como A Solidão.
Movimento completo de reversão, a lógica como arte e
lógica como instrumento? Pelo menos, a determinação de um acontecimento
curioso: passamos a ter professores de lógica, que também eram nossos
professores de moral, que também o eram de metafísica. Agora a lógica estava
sendo mesmo praticada por aí, como um instrumetno. E todo lógico que não era
professor (ou pelo menos não era ENQUANTO lógico), pôde acompanhar a lógica da
evolução dos fatos. A lógica como prática moral produziu um tão intenso desejo
e, propriamente NECESSIDADE, de catástrofe, que seus seguidores depois de se
sentirem obrigados a destruir a crença em destruições em que ninguém mais
acreditava, foram igualmente conduzidos a instrumentalizarem uma promessa real
de destruição. E começamos a falar de destruição, mas apenas como um velho
pretexto para “preservar a natureza”.
O singular é que as formas aparecem. As formas estão no reino do deleite, ou da mistura. O nada não é uma ideia confortadora, porque ninguém precisa mais de conforto num mundo que é puramente questão de confortos conjugados. Então, é preciso que apareçam algumas ideias desconfortáveis pelo menos, mas não para fazerem você se mexer. Tanto que você só se mexe quando quer, ou como se aprecia dizer, PORQUE quer. Considero trocar um "porque" por um "quando" uma tarefa fácil. Como por exemplo, subverter a ordem estabelecida. Realmente, fácil até o enjôo. Neste caso de catástrofe se viu isso, com as siglas, e a paz das bombas. Do enjôo ao desespero. Mas que é isso de esperança de síntese, futuro? Nada disso. Voltamos para o enjôo, após o desespero, e iremos para o desespero, antes ou depois do enjôo, de modo que o que você vê como enjôo e o que você vê como desespero constituem algo muito fino, tão fino quanto O MAIS FINO POSSÍVEL, porque as coisas tendem para dentro, mas vivem para fora. Então em dado momento você não saberia mais se vivia apenas com enjôo, ou se estava completamente desesperado. Espere. Completamente parece uma palavra importante. Porque é justamente completamente nos dois sentidos, quer dizer, nem enjôo, nem desespero, quando encontramos um enjôo e um desespero, ou então, completamente enjôo, e nada de desespero. Isto é, a época atual, quando caiu o muro, e o Rokn'roll era a única forma possível de comemoração, quando a mesma geração cronológica (mas evidentemente, uma nuvem de gerações) absorveu os seus mais queridos estigmas, quando a sociedade resolver dizer “é verdade”. Para falar a verdade, eles me enchem o saco. O que é que você não está pensando, querido? Em que é que você não está pensando?
O problema atinge as séries, corretamente, se pudesse
haver uma leitura do eixo. E isso é muito fácil,. O olhar tornando-se um
veículo. As coisas perderam a importância.
dor como fundamento
tão fundo na consciência
Veja bem, você não mais faz parte da alternativa, do
jogo
te
e conscientemente, instituído, cuja alternância são
do enjôo e do desespero
Mas por que a dor repete
r
ia, se ela não está de modo algum sendo sentida?
É claro que há miséria nos países pobres... (como o
brasileiro aprecia a copa do mundo), mas justamente o que não estamos dispostos
a fazer é alterar isso.
Eu concordo que podem ser reacionários, mas e daí? O
que se pode fazer para diferenciar a essa altura, de revolução para movimento
revolucionário? O próprio movimento, o bar clandestino de todas as esquinas, o
bar proibido de todas as favelas, é reacionário, mas nessas “bocas” o narcótico
é o manejo das armas, o cheiro de pólvora, se bem que hoje em dia tudo esteja
se aperfeiçoando e se peudo-complicando. Os instrumentos, quer dizer, de
revolução, neste caso “nehuma”. Nas “bocas” rola informação para todo o lado.
Bombeia-se informação pseudo-indicativa.
É uma lógica legal, essa: o que está só vai ficar de
um jeito: Outro. Agora, o pior, é que fica mesmo, bicho. Falando gíria, quero
dizer. Eu considero impróprio de uma prosa erudita, como admiro os gregos, mas
estou recheada de belas gírias fervilhantes na minha cabeça. Preciso de
informação em forma de palavras, porque preciso delas em minhas batidas
cardíacas. Então, como todo o mundo, eu fabrico uma cena, uma cena que pode
acontecer, entre as gírias. Mas eu estou... Em outra alternativa, quer dizer,
terceira e/ou reticências: sou uma correspondente de guerra. Mas não foi
preciso voar para nenhum outro lugar do noticiário palestino, porque todo o
mundo mora na Palestina. Imagine a Palestina com tudo o que você tem. Mas é
claro que então a Palestina não devia ser outra. Ela só pode ser o que ela é,
etc. Cara, desloque este etc. É claro que se perde convergência e escala, e é
tolice dizer que não se fabrica coisas assim, mas eu compreendo profundamente
antiético censurar-se o que as pessoas ingerem.
Claro que não posso, justamente por isso, esperar que
alguém seja ético. Mas é justamente o caso, de moral, e a moral não admite, nem
poderia admitir, que houvesse uma influência externa na hora em que a mistura
está sendo feita. Não tem "ABSOLUTAMENTE” nada a ver com crença NENHUMA, e é
isso justamente o que pode me fazer apta a fazer o que eu tenho eu mesma que
fazer. Profissionalmente, quero dizer, sem NENHUMA operação sacerdotal. Eu não
quero ser pregadora de nada, porque só o poderia ser de moral. E na moral,
serei livre atiradora como um cientista, qualquer, embora não admitindo
“espírito científico”, ou a compreensão imediata é uma exigência APENAS
teórica, mas não existe nada apenas teórico.
A guerra das quadrilhas nas gangs não é tão mortífera,
ou tão interessante do ponto de vista jornalístico porque igualmente não tão
interessante politicamente quanto a questão árabe, ou as rebeliões chinesas, ou
mesmo, a reunificação alemã, que aponta para uma nova paz, que já não será a
das bombas, vamos voltar a viver o sonho do contrato, mesmo que já o tenhamos
refutado, vamos tomar hoje o que era veneno ontem, e hoje o que será? E o
Rockn'rol derrubou o muro... Mas uma justificativa para o meu trabalho, queria
dizer justamente por assim ser considerado, não há ninguém que faça esse
trabalho teórico simples de examinar pessoalmente, embora a prática de TODO
correspondente de guerra o faz necessariamente lidar diretamente com o risco da
guerra.
Já temos jornalistas por todos os lugares, e pelo
menos jornalistas formados e laureados pelas academias instituídas. Eu não sou
contra coisa nenhuma que viva sobre a terra. E jornalistas daqueles que se
poderia considerar verdadeiros, e que sendo assim poderiam julgar falso
correpondente, não credenciado, legalmente. Ao que eu respondo que não conheço
faculdade em universidade nenhuma, simplesmente, porque as próprias disciplinas
agora são os dados problemáticos, inteiramente inseridos no problema. Que
envolve o trabalho jornalístico, sou uma correpondende de uma guerra que eu me
eximo de considerar justa ou injusta, mas que tem aspectos inacreditáveis. Ela
está infiltrada no cotidiano mas só habita as páginas de jornal na seção
policial. É uma história que abarca também toda uma pesquisa genealógica, é
claro, não do passado, mas deste presente, que se poderia considerar
filosoficamente o MESMO que qualquer outro presente.
O romance do terrorismo de Doris Lessing, "A
sobrevivente", apenas me revelou o que eu testemunho todos os dias nas ruas.
Porque é ali que está, o mundo. Mas não sou a personagem de "A sobrevivente". O
mundo das gírias que eu estudo, as siglas, a boca, o bar clandestino,
narcóticos, tráfico, Rockn-roll, pouco vejo o noticiário porque em princípio
estão todos errados. Mas eles não são o meu problema. Eu os entendo
milenarmente. Eles só se preocupam com sequestro, está multiplicado um fenômeno
que já aconteceu no outro mundo do desespero, na década de setenta, quando
também havia muitas notícias de sequestro no Brasil, mas sabemos que havia
terrorismo no Brasil naquela época, e hoje o ignoramos novamente, com toda a
complacência possível. O que denota acordo, de cuja especificade, só o olhar
adequado.
Absolutamente NÃO. Replicar-se-ia. Denota acordo que
justamente TODO O MUNDO FAZ QUESTÃO de entender, e de estar entendido.
Pode-se dizer que a tarefa, aquela a que me dedico
apenas pela óbvia razão de compreender sua existência como tafera, ou métier,
como só os franceses sabem dizer, e é o sentido que precisamente quero dar, é
absurda. Precisamente, fale como paranóico, segundo Rosset, quer dizer, ele não
fala exatamente isso, ele fala pessimista (e pessimistas falam "Precisamente').
Assim como, também se pode citar a feliz expressão de Huysman: “Eu não me
importo com a mentira, mas detesto a imprecisão”. Mas não considero eu mesma
minha tarefa como absurda, e nesse caso Rosset concordaria que deixo de falar
como pessimista. Logo, NUNCA falei como pessimista. Apenas, as universidades
não dispõe do curso que eu precisaria. Na verdade, estudo o dia inteiro se
querem saber. Sou uma cientista de tempo integral. Dizem que Madame Cury também
o era. Apenas indagamos que minha experiência se refere ao próprio saber, e
assim, este termo é o próprio objeto do saber? Não, não, a epistemologia estava
antes, ela sempre está antes, de quando se resolve “induzir”, para falar como
os cientistas.
A tarefa é um TEXTO, é a correspondeência da Guerra
das Siglas para QUALQUER jornal que publique, mas nenhum deles poderia se
interessar por esse material, porque eu não sou jornalista, como eu dizia, eu
não sou jornalista, embora, num sentido, o trabalho de campo da reportagem (mas
como é isso impossível de conceber... um trabalho que já não fosse de campo),
pudesse precisar de uma tal prática, e efetivamente precisa. Logo, precisa de
sua teoria. Mas também pode ser por outro lado denominada pesquisa histórica,
mas de novo não adiante pensar em institutos porque isto não se estuda de modo
algum em faculdade de história.Sim, eu concordo que é uma bizarrice. Mas deixa
de ser, quando se pensa e se afirma, que também poderíamos adaptar aspectos de
física, de filosofia, de psicanálise – mas acaso me pretendo um gênio? Tanto se
me dá que essa pergunta seja respondida positiva ou negativamente. Mas também
não estou fazendo uma digressão. Talvez fosse possível entender, se eu dissesse
que NUNCA PODERIA digredir, que não se pode, embora se pense que isso é sua
condição de sobrevivência.
Superioridade e inferioridade também são termos
indiferentes. Quem é mais corajoso, justo, honesto, etc. Etc. Todo o mundo é
honesto, contra sua vontade, de modo que fazer de alguém desonesto é uma
realidade impensável para mim. Assim como é, por enquanto, universitarizar o
meu discurso, meu saber, a minha prática. Claro que eu gostaria, afinal de
contas, de apreciar as críticas do único modo que APRECIAR é possível. O mundo
nada está encarregado de dizer de mim, mas eu só digo dele. É claro que é o MEU
trabalho de edição. Mas não há critérios em jogo, se não o jogo dos próprios
critérios.
Por isso pensei em experimentar ir trabalhar todo o
dia. Mas não quero estragar o meu fígado, por isso escolhi um emprego que
funciona de uma às cinco. Assim mesmo que os pretorianos tenham a audácia de me
parar (o que não seria muito comum já que estou disfarçada de estudante
superióloga) eles constatariam que eu sou mesmo superióloga e estou a serviço
oficial (o que quer dizer que eu devo continuar cumprindo a minha obrigação de
não fazer nada).
Ontem recebi o formulário da faculdade. Aí está: como
poderei acordar ao meio dia se para ser estudante superióloga, e esse é um
ótimo disfarce, eu tenho MESMO que ir todo o dia à faculdade porque estou na
fase educacional I, aquela que ensina Direitos e Deveres I, II, III e IV?
Assim eles me pegaram bonitinho. Já esgotei os
recursos de parada complementar, o que de modo algum foi algo totalmente
positivo, porque com isso ganhei o primeiro x. Mais de tres e você está sendo
pesquisado por alguém, da unidade dos Psíquico & Físicos.
Eu tenho dinheiro, mas estou usando muito isso
ultimamente e é perigoso, uma vez que eles acabam reparando que eu não uso
passes. Na época as ideias estavam escassas e raras, e por isso eu pensei que
fosse uma boa ideia. E não é que deu certo? Eles me aceitaram. Mas isso só quer
dizer que agora é que tem que dar certo. E daria, se não fosse essa norma da
faculdade. Além disso eu tenho que dar um jeito de tirar esse x do histórico, e
assim, fazer outro Teste Progressivo. Sempre digo: se eles desconfiam de você,
deixe que o examinem de alguma forma, pois isso os obriga a escrever os
resultados que, claro, vão ser vantajosos para VOCÊ.
Assim, estamos na estaca zero porque eles já ganharam
até aqui, pelos meus cálculos exatamente tres anos obrigatoriamente
consecutivos.
Estou imersa num mundo de substância. Eu mesma sou
também uma substância, jogada no meio de outras, mas não há nenhuma igual, e
seria impossível imaginar um mar, um acordo, porque seria impossível imaginar
qualquer continuidade, a não ser se aí estivesse implícita TODA continuidade. Um
mar que não se poderia fazer porque não se poderia somar uma onda a outra, uma
partícula de movimento com outra partícula de movimento. Só existem movimentos
contrários, mas de que modo seriam contrários a não ser numa perspectiva que é
em si mesma cega, não pode se enxergar porque só pode enxergar, ver, e não pode se ver. Não posso me ver como se estivesse me sentindo, talvez eu me sinta.
Tudo é duvidoso. Mas eu só posso ver. Isso quer dizer alguma coisa importante,
eu sei, mas agora ainda não. Agora, eu estou no mundo da substância, e não há
nenhuma coisa que pudesse ser agrupada com outra coisa na mesma palavra, mesmo
que a palavra seja substância. Eu mesma sou uma coisa, é aqui que estou parada
agora, e por isso não quero o importante. Eu mesma sou uma coisa.
Eu podia achar qualquer número para designar esta
fase, pois as séries de classificação são num número tão imenso que se torna
incomensurável. Sim, o inimigo das narrativas pode ser justamente o amigo das
narrativas. Porque o que é que estamos ganhando com essa esterilidade? Como
sempre, aqui aparece um diagnóstico. Pois estamos na terra dos nomes. Certo,
senhor inimigo das narrativas, ESTAMOS nesse domínio. É claro que sairemos
dele. Sair e entrar, eis o segredo da terra dos nomes. O segredo da
intermitência. Como no caso das coisas. Entre uma e outra, há o silêncio.
Vazio, isto é contínuo, no caso do silêncio.
Mas se você mesmo é uma coisa, não há vazio algum que
você possa contemplar, porque você mesmo tem uma propriedade mágica. Chamaremos
continuidade a propriedade mágica de uma substância, mas o que queremos mostrar
justamente é que todos os termos são provisórios. Uma sacudidela na caixinha de
tipos e todas as combinações se refazem, mas não as mesmas. Às vezes aparecerão
períodos de ocorrência estatística. Então podemos ver algo. Exatamente, uma
perspectiva.
Aceitamos os termos provisórios porque continuidade
desloca a noção de contiguidade. Muito secundariamente, a continguidade estaria
no cerne do interesse em tal experiência indutiva, de caráter estocástico. Ms o
que estaríamos contemplando seria uma outra realidade, ou ao menos assim se
pensa. Mas em sua secundariedade, é a contiguidade e só ela, a condição de
possibilidade da experiência. Não só a condição de possibilidade mas o seu
próprio êxito, se podemos falar de êxito. Porque ali, nos períodos de ocorrencia
estatística, separados dos seus antecessores no tempo por milhares e milhares
de cálculos, nestes períodos se desenham formas, ou seja: um gráfico pode ser
construído “por cima” do espaço de distribuição de pontos.
O que caracteriza propriamente a gênese de uma
perspectiva. Dessa maneira podemos também localizar melhor o problema do
aprendizado, da descoberta, e da invenção. Mas neste momento, tudo o que
interessa é a descoberta da coisa, da substância, ou mesmo, do nome. Porque não
se tem a menor ideia do que é um nome, a menos que já se tenha passado pelo
mundo substantivo. Essa experiência deliciosa, assustadora, logo, fascinante. E
vejam, acabamos descobrindo AQUI o inimigo das narrativas. É uma situação
engraçada. Há um inimigo que me persegue, mas não a mim. Há algo que eu devia
ter, mas que não tenho. O que torna tudo tão especial é justamente que ele me
persegue porque eu não tenho o que ele quer, por outro lado ele tem assegurada
as passagens da narrativa, que é aquilo que eu quero. Mas também não é ele quem
as tem. Ele aspenas as ocupa. Não é de modo algum uma questão de espaço, mas de
anti-espaço ou espaço de passagem. Logo eu, como perseguida, estou na verdade
guerreando, mas também não pelo que o inimigo tem, mas pelo que ele não tem.
Pois é, tudo acaba assim, fantasmagórico e burlesco,
no mundo substantivo. É de todo o modo diverso do que foi o Ano Mil. Outra
experiência. Eu pensei que houvesse sido outra experiência, mas o Professor
tentou me convencer de que isso era um equívoco.
O Ano Mil. Comecei a sonhar com letras de alfabetos
desconhecidos, e às vezes havia alguém que as desfilava num quadro negro,
enfileiradas em frases, como numa classe de alfabetização. Eram lindas. Pelo
menos davam a impressão de um trabalho imensamente delicado, cada uma das
letras, mas a mão que as traçava desenhava um movimento suave, rápido,
encantador. Depois o sonho ficou turvo, quer dizer, não o que eu estava
sonhando. O sonhar é que se turvou. Aqueles sonhos era justamente
caracterizados por uma edição perfeita, cristalina, e tinham a estranha
propriedade de parecer não terem terminado nunca. É justamente como se não
terminassem porque o mundo aparecia diferente quando eu acordava. Conservava um
aspecto cristalino, mas parecia estar ocorrendo ao mesmo tempo que o sonho que
não terminava. Só que eu não estava ali quando acordava, e sim no mundo em que
eu vivia o meu estar acordado. Parecia justamente que tudo poderia ser descrito
por um aspecto espacial. Dormir e/ou acordar, era uma questão de deslocamento. E
todo deslocamento só pode produzir um espaço. A questão do deslocamento no
tempo não deve ser colocada aqui. Seria simplificar algo por demais complexo,
como o tempo. Uma faceta de sua complexidade é que ele é eternamente
espacializável.
Mas o caso é que depois dessa série de sonhos com
escritas, passou-se uma série turva, o que equivale a uma não-série, uma vez
que tudo o que acontece é caótico demais para constituir uma lembrança.
Não duvidamos de que ISTO precisamente é a informação,
mas para que a informação PASSE, ou que um sonho aconteça desta forma ou de
outra, é preciso que as contiguidades estabelecidas sejam pertinentes. O
problema da pertinência seria aqui fundamental, se a realidade do que passa não
fosse justamente um caráter de impertinência própria daquilo que vem ao nosso
encontro, um livro, um sonho, uma pessoa, etc. Períodos de sonhos turvos, e de
súbito eu compreendi de uma maneira desconhecida até então, de compreender, eu
compreendi como é que compreendia.
Uma teoria, seria a única palavra lógica. Mas não é
possível fazer uma teoria de todas as palavras do mundo. Conhece-se o argumento
do lançamento. Mas há mais: contra toda crença, quando compreendi pude ver
claramente o quanto compreender não importava de modo algum. Não é que não importava
metafisicamente, ou moralmente (toda metafísica é uma moral), é que não
adiantava, no sentido costumeiro da expressão, que corresponde a servir, ser
utilizável. Já era difícil sustentar que havia alguma coisa não utilizável em
mim mesma para mim mesma, quanto mais que essa coisa fosse justamente a
compreensão.
Não mais na experiência do Ano Mil, é certo que aqui
as coisas são incrivelmente diferentes, no mundo subs (o nome é comprido,
portanto abreviável). Aqui tudo o que é possível é descrever. Mas como é que
deveria acontecer algo assim? Eu que me iniciei nas técnicas clandestinas, eu
que recebi elogios e aprovações e ajudas incalculáveis, eu que precorri essas
rotas, e justamente as rotas onde estavam todas as circunstâncias favoráveis,
eu que as inaugurei. A tudo isso se pode chamar a experiência de perder o nome.
Sim, é doloroso e terrível. Mas é a suportabilidade que o torna irresistível.
No entanto, o segredo das minhas rotas. Isto é, havia
um segredo nas rotas. É que elas mesmas formam o gráfico. Não havia mais
gráfico, porém. Porque justamente é não estar onde estamos. O Ano Mil tinha
formado um novo gráfico. E eu pensei que a questão do inimigo das
narrativas estava superada.
Ele é o recenseador das coordenadas, certo, mas só
aparece entre DOIS eixos, o que constitui apenas UM gráfico. Sem o peso dos
nomes não nos pode acontecer de passar pelo pedágio do inimigo das
narrativas, porque neste outro gráfico não há pedágio. Perder o nome também é
assustador como perder os sentimentos. O que se torna com uma afetividade que
se torna tão cruel? Mas de uma crueldade extremamente piedosa, uma crueldade
consigo mesmo, quero dizer. Mas uma crueldade EXTREMA. A ânsia pela extremidade
é uma manifestação semelhante àquela do nenem que quer aprender a engatinhar,
andar, sair do seu próprio lugar, ocupar propriamente um espaço infinitamente
maior, para falar figuradamente. Crescer. É sempre cercado de nervosismo, como
a irritação de uma gengiva onde um dente está para romper.
Cair no mundo Substantivo não foi mal, nem bem. Foi
apenas algo mais do que parar. Tudo isso tem um sentido decisivo para mim, e
veja, afinal eu posso seguir a minha própria linha de raciocínio, e assim seria
completamente lógico agora, investigar se, então, o mundo substantivo também
não é uma questão de eixos. O problema da lógica é sempre a imaginação. É isso
que a faz tão absorvente. Porque imaginação e afetividade estão ligados. O que
acontece quando não estão mais, ou pelo menos, não necessariamente?
O Ano Mil virou uma ficção. Não que antes fosse mais
ou menos real. É que antes ele não era passado. O problema do mundo subs não é
de eixos, na medida em que se há eixos eles são escorregadios, e se há portas,
elas abrem e fecham loucamente, e em algumas está escrito entrada e em outras
está escrito saída, mas isso é uma abstração. Nada está escrito no mundo dos
nomes porque aqui, tudo é. Se há um caráter alienante no mundo dos nomes? Mas
se a sua característica principal é de já estar tudo alienado, não sobrou uma
única mercadoria para vender e já depositamos todo o dinheiro na conta
bancária. O problema é que isso aconteceu com todo o mundo. Por isso, este
mundo é apaixonante, irresistível. Sim, você fica muito alegre, muito feliz,
mas não há nada fora da rotina. Você pode qualquer coisa. Parecia que eu sabia
Antes, mas não há realmente, antes. O mundo de agora? Não sei. Em todo o caso o
professor manda um bilhete:
"Neste momento é continuar ou nunca mais dizer
O mistério do um e do múltiplo
O Poder do silêncio
Ler”
Ler? Eu devorava livros, mas também o meu apetite
aumentou imensamente, apetite propriamente, incluindo livros, mas
principalmente em relação a comida. Eu comia várias vezes. Talvez fosse isso
afinal de contas que fizesse diferença, eu pensava enquanto comia, essa coisa
simples e idiota que é comer. COMPLETAMENTE idiota. Eu lia e comia. Quer dizer,
isso está acontecendo agora. Muito mesmo. Então para designar o acontecimento
usa-se classificar a perspectiva, que quer dizer: eu agora me sinto
transformada num binômio. Ou comer e ler, ou dormir e sonhar, ou tocar e
cantar. Temos na verdade apenas tres termos algébricos e para reduzi-los basta
apresentar o princípio mais simples da ramificação: ou lemer, ou sormir, ou
cocar. Ainda bem que pelo menos se pode voltar para o mesmo assunto: a cocaína
volta. Volta. Volta.
O que devo responder, meu caro? Ah, sim, ISTO? Eu
posso responder qualquer coisa. Repetir isso até o fim, o resultado nascerá de
um confronto. Certo, certo, mas isto serve? Sim, serve. Para quê? Para pensar a
paz mundial. Soa bacana, a paz mundial. Estamos na época em que o muro caiu.
Justamente o que os bravos rapazes dos anos sessenta precisavam. Que demolissem
o muro. Para eles constatarem o quando estavam sendo obsessivos. Completamente,
quero dizer, enquanto acrecitassem que o que era repetido podia ser uma coisa
sã. Justamente não pode, etc. Então o que quero dizer é que as pessoas se tornam
obcecadas. Mas não é possível, em última análise, viver, senão obcecado. O
gato, por exemplo, é obcecado por ar. Eu sei que devo dizer afetos. Ms não
estou ligando se levam ou não a sério. Instituição de gírias só pode ser
praticado como um hobby? Não deve haver mais seriedade? Fórmulas matemáticas só
são o máximo para quem quer passar no vestibular. Depois disso, consultamos os
pitagóricos, etc. O que importa a imprecisão? Importa tudo, na música.
Bastante surpresos os egiptólogos se calaram. Todos sabiam
que era impossível explicar, e todos continuavam se perguntando. O próprio
esquema de paranoia infantil. PARANÓIA INFANTIL só ataca adultos, e quando as
crianças apresentam esse problema é porque não são mais crianças. Fulano
escreve para se conhecer, ou para se entregar a si mesmo. Gozar com os próprios
meios, sem depender de ninguém para não estragar. O anticlímax. Mas isso não
tem nada a ver com raciocínios infantis. Já então estamos no campo da
cibernética.
Técnicas maquínicas, etc. Em qual foi o texto anterior
em que animal e máquina apareciam sob o mesmo contexto de Compreensão &
Comunicação? A Arte do comando. Mas vejam que engraçado, quando então é
justamente quando não se está mais “comandando”. Na aparência nada pode
predominar sem que tudo já esteja na ótica “natural”.
Escrever como se não estivesse escrevendo. E se
estiver tudo errado? Sigo modelos mas não tenho força para continuar por muito
tempo seguindo o que quer que seja. Uma colcha de retalhos de modelos
diferentes como cristianismo e revolução. Agora o silêncio. Não sei a próxima
nota. Estou confusa como se perdesse a unidade. Sei quantos dias tem uma hora.
Morrendo? O que foi que tu fizeste, querida? Eu não tenho remorsos. Eu não
tenho culpa. Culpa e medo rondam pela casa. Eles estão procurando alguém, para
obcecar. Sofro de leve, o que é pior que um problema. Sofro sem esperança.
Esperança é uma boa estrela, um amigo repentino, aprender a deixar de fumar
cigarro careta, esperança é queijo com doce de leite, com proteína, eu quero a proteína.
Rir é a melhor solução. Mas eu perdi a esperança de que exista solução, só
existe a solidão, com ou sem alegria. Alegria. Experimente alegria. Hoje em dia
é perigoso. O bar clandestino está violento.
Bar da rua (*). Depois de procurar por trinta favelas
durante aproximadamente três horas, descobri que quarta-feira não é dia de
vender o narcótico específico, etc., mas todos são unânimes afirmar que o bar
da rua (*) estava funcionando, vamos lá. Na minha cabeça passaram-se muito
poucos minutos. Repentinamente eu estava andando. E repetindo um mantra
ininterrupto:
Eu vou conseguir
Eu quero conseguir
Eu preciso conseguir
Rua **. Praça ***. Não tinha NENHUM bar clandestino
lá. Era triste. Fui saindo da favela, mas num último instante, perguntei a
alguém. POSITIVO. Só que agora, o nome do lugar era outro, e ficava num outro
lugar, muitos e muitos degraus pra lá para depois, etc., o lugar era
completamente maluco, malocado, cheio de malocas e malucos, crianças e mulheres
e bêbados e velhas. Todos passeando os seus olhos esbugalhados pela rua sem
destino, a rua que é como uma taba, de índios refugiados.
Mas ainda era a mesma favela. Os moradores se
reconhecem, e pelo olhar elas se comunicam. Todos tão nervosos. Eu me sinto uma
mulher sozinha. Janis Joplin. Tenho guardadas coisas durante muitos anos. Estou
procurando um lugar, chamado de não piedade. Pois é. Não há muito com quem
conversar nesta parte do planeta. Estenderam um muro à nossa volta, e não
acreditem quando lhe disserem que ele caiu. Conheço a América Latina. Qual é a
relação disto tudo? Uma soma? Eu estou farta de somar. Considere o tédio como o
constituinte universal do luxo e do conforto.
Na favela NINGUÉM sente tédio, porque ninguém tem
tempo pra isso. A população está acuada entre as duas extremidades percorridas
pelo comércio de armamentos. Um comércio que passa pelas guerras e movimentos
armados no mundo inteiro que servem como uma indicação para o fluxo do
dinheiro. É tudo MUITO estúpido. Mas o que é que vamos fazer? Vestir camisas
grafadas de silk e pedir a paz? Mas a paz nesse caso significa rendição. A
GUERRA DA INDÚSTRIA DE ARMAMENTOS É CONTRA A GUERRA DA FOME. Quero dizer, o
único perseguido pelas armas é o espoliado dos alimentos. ELE é o marginal.
Então o que é que faz o espoliado? Ele se casa, e fica respeitado pela
comunidade, daí em diante, está garantido o braço operário, mas no Brasil não
há operários, aqui só temos sujeitos equivocados.
As máfias convergentes dominantes, com produção de fantasmas atuantes. As máfias são. Mas afastando-se rumo aos anéis circundantes, numa progressão que DESFAZ o caminho obrigatório de círculo. De um círculo a outro até estar completamente fora. Eu estou fora. Mas é preciso que existam MUITOS círculos. Porque ficar fora só de um, isto é satelizar-se.
Os ídolos do pensamento, segundo Bacon. Muito boas
novas, mas pena que estavam incompletas. Naturalmente dispomos de uma mística de
conhecimentos progressivos. Mas isto é como estar convencido, do mesmo modo que
alguém transfere o seu próprio impulso para algo que está no tempo e não em si.
No tempo, nesse caso, também é um ídolo, porque não é assim que o tempo age,
porque nada age assim, nem mesmo nós. Fingimos que é muito difícil nos
convencer de alguma coisa, e inventamos provas. Mas nada é mais difícil apenas
porque é uma tarefa absurda. Nós sempre estivemos convencidos, a ponto de
convencionar que justamente ESTA concordância (ou aquela, ou ainda a outra) é a
fundamental.
Não existe nada que possa ser passível de
concordância, assim como nada pode ser fundamental sem se ter deslocado de um
fundo, o fundo do fundamento. Mas que conto infantil é esse em que o lobo é a
Chapeuzinho Vermelho disfarçada?
Passar a problemas expositíveis. Transcrevo frases com
os olhos enfocados. A história da feitiçaria. As fogueiras, as torturas. Não há
nada de novo sob o sol, exceto o sol.
Problemas de distração, o tempo todo. Desorientação
geral, cada um está indo prum lado, vejo tudo em expansão, que é que tem? Nada
faz sentido – tenho vontade de rir. Mas de algum modo inconcebível, tudo
continua irreversivelmente aqui.
Não é nenhum fator de conversão que está querendo se
fazer insinuar, entender, e explicar. Tudo continua aqui. Nada sobra para não
continuar. Nada.
Mas algo passa. Sim, algo sempre passou, e agora
passará de novo.
A ciência da luz que se processa na obscuridade
abençoada dos sonhadores, os loucos contempladores do céu e/ou de pensamentos,
como cantores que inventam sons novos, Bellevue – baía de Guanabara, como num
porto do mundo.
O Ano Mil deve ter sido como um fator de relação com o
mundo Subs? Houve um desmoronamento. O Ano Mil não estava ali, ou a Inglaterra
não estava lá, nem os espanhóis e os portugueses, só o que chamamos Índios
estavam lá, mas a própria história os reuniu. Sim, a história os reuniu e
obviamente a história é sempre alhures.
O desmoronamento. Não, o mundo Subs não nasceu de Um,
do mesmo modo que nunca reconstrói nada, pelo mesmo motivo simples de nunca ter
jamais construído. O que construiriam? No meio do caminho porém, atravessou-se
a tarefa, um fator de contestionamento explícito, e nascia perante nossos olhos
o mundo subs. O todo o dia e o todo mundismo, etc. Mas ser clandestino é não
ter mais nenhuma missão. Ele se contenta com uma tarefa, desde que lhe pareça
desejável.
O mundo subs, e o professor e os séculos que tropeçam
uns nos outros. Eu seria como um escritor vagabundo, mas porque tenho por
tarefa a ociosidade, quero dizer, a disponibilidade, quero dizer a
possibilidade.
As histórias não podem deixar de ser contadas.
Cibernética do desvio, clandestinidade com máquina, e
os campos de atuação conquistados. A sedução de Mary Joane Luz. Na Praça
Bellevue.
Histórias da clandestinidade
O olhar do escritor é sempre apropriativo. São poucos
nomes porque na verdade os nomes estão deixando pouco a pouco de valer, na
sociedade pós-nada. Então direi que siglei tudo, e aumentei progressivamente e
geometricamente, mas também o espaço em volta de mim.
Estamos cercados de Brasil por todos os lados, e se
aqui fosse uma ilha estaríamos cercados de mar por todos os lados, e o Mar
seria o encontro do Oceano, em todo o caso o Brasil não é agora mais que uma
sigla, recortando uma territorialidade genética que recorta os espaços que eu
precorro às vezes, do lado de lá do nome, ou da sigla.
Escrevendo por causa da volta dos homens de paletó, e
como seria curioso e agradável juntar os diferentes tempos, o antes e o depois,
o livro I e o livro II, como se assim intensificássemos o espaço em função do
preenchimento do tempo. Por causa da volta dos paletós, porque essa volta tem a
consequência de um ULTRAPASSAMENTO da loucura, ou o ponto para onde nos remetia
Histórias da Clandestinidade, tendo sido tanto tempo necessário e não se sabe
ainda quanto.
Pesquiso agora um projeto intitulado AGENDA DO ESCRITOR.
Este projeto deve-se ao requisitado pelos homens de paletó. A minha tarefa é
projetar a ocupação do tempo (incluindo cardápios, detalhes do passeio e
vestuário, assim como a vida privada) ideal para um escritor. Em primeiro
lugar, raciocino, um escritor não tem agenda porque o seu tempo não é
compartimentalizável. Então eles disseram que eu podia escrever outra coisa se
quisesse, e eu achei que gostaria muito de escrever este livro, e que um
escritor faz tudo o que gostaria muito.
O escritor também é uma potência do falso, o falso é a
ficção, lógico, embora sirva para a nomeação dos pensamentos que... não são
pensamentos. São muito mais e muito menos. Há uma teoria das vozes. Não do
Ditado. Não há ditado nenhum a não ser como ordem. Mas NÃO SE PODE SEGUIR a
ordem do ser. Nisso os existencialistas experimentaram à náusea, porque apesar
do nada, continuamos a procura. Qu est-ce que tu quète: Je ne quète, je conquéte. O olhar háptico, eles falaram nisso – o termo é de
Riegl? Os passarinhos cantam. Reduzirei tudo ao instante. Sou thasher, sou
pássaro, uma nova mistura, estranha mistura em minhas veias. NENHUM FINGIMENTO.
O olhar háptico não executa tal função, ele toca mas seu uso implica uma
transformação acumulativa, uma transformação da ordem do todo, e entre a ordem
do todo e a ordem das partes há um abismo REAL.
As long as we can say
away...
sail
É preciso fazer a convergência. O reino Subs é a falsa
representação, e não é que haja verdadeira. Apenas o Reino Subs não pode deixar
de ser arrastado num perpétuo redemoinho. A looucura, se quiserem “passagem
prisioneiro da”. A verdadeira representação é alarmante. O Brasil, o terceiro
mundo, a guerra das siglas, os homens de paletó. Tudo isso tem que se abrir, um
ziper que abre e fecha, para um lado e para o outro, são direções de
movimento, as equinas são dobradas por pessoas, as ruas estão, os edifícios
estão. Havia ESQUINAS na pré-história?
Fazer a convergência porém implica muito mais do que
se possa imaginar. Porque um cotidiano não deve ser falado, deve ser vivido.
Quem protagonizaria uma tal agenda, se ela inclui tão raras atividades, e tão
escolhidas? Mas eis o princípio dos Cadernos, sendo revirados. Havia um espaço
inocupável e livre em todos os cadernos. Então eu não somente os conquistei, mas
os alarguei aos extremos, liberei os diques dos espaços brancos e depois de
perder o nome, a forma, o branco se intercalou, para voltar a ser o que ele
era, uma possibilidade, entre outras.
Um pequeno passo a mais e o branco ele-próprio volta a
cair no seu próprio branco e se institucionalizar. E por outro lado também
basta um pequeno passo para o branco romper os novos e preciosos diques. Muito
mais do que se possa imaginar. Volta ao vivido? Eu diria viagem ininterrupta,
de ida e vinda e voltas e mais voltas, e todo o problema está nas curvas, nos
cruzamentos.
É claro que a operação clandestina de perder o nome
não é uma operação legitimamente superficial sem por outro lado afetar o
deslocamento em profundidade, possibilitando assim, por exemplo, o mero falar a
respeito, ou ainda pensar sobre a profundidade. Para encurtar falaremos de uma
visão da multiplicidade irredutível. Porque por um lado ou por outro se chega a
isso: todos os fundos são falsos ou criamos para nós mesmos o fundo que nos
convém, por todas as necessidades do mundo. Já o sem fundo, dá o caráter
irredutível da multiplicidade.
Mas tudo implica a visão. Pois na medida em que há
aquela mudança acumulativa no âmbito do todo, a visão discerne ou pode
potencialmente discernir o fundo múltiplo, isto é, as matérias da visão passam
a servir de estrutura para a sobreposição de outras sensações materiais
ordenadas em campos genéticos de pesquisa, através de TODO esse tempo. Assim,
dado a estrutura material do fundo múltiplo visível, passa-se ao exercício da
própria desordenação e reordenação daquelas linhas de sensação, a saber: a
temperatura (tato) que inclui algo que se descobre trabalhando o quente e o
frio. A luminosidade (visão ou estrutura material do fundo múltiplo visível),
que se trabalha com as sombras (o dia-noite e intermediários). A altura
espacial de sentido (audição) que envolve “alturas” que se ligam ao resto do
corpo em níveis diversos de abordagem, produzindo mudanças qualitativas nos
movimentos. Não existe a "GRANDE CONJUNTURA”, nenhuma justiça no acaso.
Estar pontualmente, lavar a louça, alagar uma cozinha
suja, bagunçar a bagunça, por aí se inicia a limpeza.
Eu limpo com produtos ecologicamente corretos. Eles limpam com imperativos categóricos, para se passarem por cidadãos de bem. Acho que eles fazem suas faxinas obrigatórias com solventes cancerígenos. Mailler falava do câncer, mas Mailler estava também meio neurótico, com a psicanálise. Neurose câncer-irradiativa.
Eu limpo com produtos ecologicamente corretos. Eles limpam com imperativos categóricos, para se passarem por cidadãos de bem. Acho que eles fazem suas faxinas obrigatórias com solventes cancerígenos. Mailler falava do câncer, mas Mailler estava também meio neurótico, com a psicanálise. Neurose câncer-irradiativa.
Partindo de pontos quebrados. Onde, como, quem,
porque. Nunca se chegará ao outra coisa que pontos quebrados. Onde, como, quem,
porque. A operação mais arriscada comprou um oráculo manual e adotou os modos
do vento. Perder a auto-importância que é tão somente auto-piedade disfarçada.
Eu não preciso mais botar aspas porque não é mais necessário nesta década pós
cut-up. Wellcome imperceptível parece brotar do asfalto, ou os asfaltos começam
a perder terreno. A última guerra das siglas será entre o homem e a natureza.
Não entre o homem e a mulher, conforme os teóricos pretenderam. Os filhos da
terra insensatos. Até que libertem a terra das fronteiras dos solventes canceríginos.
O existente não se encontra nunca na relação continente-conteúdo com a
existência, como Devia ser. E a própria existência, ou se desdobra como
continente vazio do conteúdo existente, ou se envolve num acontecimento cheio
de siglas por todos os lados, são todos os existentes que percorrem as trilhas
sigladas, que não encontram nunca a existência, mas encontram sim
existentes-siglas, porque desde então, todo o espaço tornou-se patrulhável...
É isso a clandestinidade. Conheço nuvens, céus, ventos,
pássaros. Conheço chuva, raio, trovão, luzes, névoa, tempestade. Conheço
flores, ervas, árvores, animais e deuses. Conheço a terra, as rochas, as
estrelas, o mar e os precipícios. Conheço a água, os metais e as ilhas. Conheço
o fogo, as sombras, os astros e as palavras. E agora, quem precisaria conhecer
também O Homem?
(Eliane Mil)
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LIVRO 2 / assinando Eliane de Marcelo
Estamos em dois mil e quatorze, agora. Escrevia em mil
novecentos e noventa, quando tinha vinte e seis anos, aquelas coisas que estão
aí, acima. Eram tão especiais em relação ao que eu costumava escrever antes,
muito antes, desde sempre, desde os cadernos de diários no ginásio, as poesias,
etc., etc. - tanto que inventei a assinatura que consta naquele texto, e só desde então pude adotar pseudônimos.
Em noventa eu desenvolvera estranhos hábitos, mas coerentes, creio, com estar morando numa Ilha, numa casa muito sugestiva, entre névoas, no cimo de uma colina, com a frente abrindo-se para os abismos. Havia iniciado a vida em comum com o homem com quem eu estava mantendo um relacionamento constante há quatro anos. Morávamos com os pais dele, que habitavam a grande casa da frente, nos apartamentos sobrepostos que ficavam nos fundos. Eu ocupava, conforme me havia sido disponibilizado, o apartamento de cima, à guisa de meus aposentos pessoais, mas a nossa morada se compunha dos dois níveis.
Em noventa eu desenvolvera estranhos hábitos, mas coerentes, creio, com estar morando numa Ilha, numa casa muito sugestiva, entre névoas, no cimo de uma colina, com a frente abrindo-se para os abismos. Havia iniciado a vida em comum com o homem com quem eu estava mantendo um relacionamento constante há quatro anos. Morávamos com os pais dele, que habitavam a grande casa da frente, nos apartamentos sobrepostos que ficavam nos fundos. Eu ocupava, conforme me havia sido disponibilizado, o apartamento de cima, à guisa de meus aposentos pessoais, mas a nossa morada se compunha dos dois níveis.
Eu adorava então habitar o âmago da normalidade, ao
acordar aos meio-dias, e na penumbra do quarto fechado sentir, ao mesmo tempo
intensa e intimamente, o movimento incomensurável das populações humanas lá
fora, em plena ebulição dos seus fazeres, e era importante para meu sentimento
que esses fazeres fossem captados como intrinsecamente cotidianos, aquilo que
essas populações faziam todos os dias.
Elas eram imensos conjuntos qualificados, de
estudantes, de professores, de atendentes de escritórios, de trocadores de
ônibus, de todo mundo e de ninguém. Eram, cada um, um universo organizado,
dotado de sentido pleno, e eu existia para constatá-los, testemunhá-los,
atestar que a normalidade era vigente pelo fato da vigência desses universos,
testemunhar plenamente, com aquela espécie de olho todo-sensível interior.
E depois, logo depois, o café, o meio-almoço e a
máquina de escrever. Ela permitia transportar toda a sensação dos universos, do
sentido intrínseco deles e dos seus problemas e dos seus desejos e das suas
aspirações, para os meus processos de expressão, do pensamento, da linguagem.
Os universos falavam, a máquina transmitia, eu devia apenas permitir,
silenciando, e se falava de mim mesma, era como o eu habitante entre os
universos.
Entre a penumbra da alcova e a máquina de escrever, a total
vedação do exterior conservava-se intacta o bastante para que a total
comunicação do exterior penetrasse o senso íntimo, e somente a verdade fosse o
canal de acesso.
É claro que a qualquer um familiarizado com a
literatura da modernidade tudo isso é perfeitamente natural e compreensível.
Não sei se a linguagem que então conquistei como meu veículo era realmente
original ou não, mas certamente a forma, a proposta, não era, bem pelo
contrário, eu procurava como meu objetivo consciente apenas formular a essência
dos investimentos da vanguarda modernista e pop arte, já sobejamente conhecida
e assimilada pelos historiadores, teóricos e críticos, que então não estavam em
antagonismo como depois ocorreu por causa da rubrica “pós-moderno”.
Mas eu estava justamente naquele momento, tendo
contato inicial com a filosofia em geral e com o que se poderia talvez dizer
filosofia de vanguarda em particular, os pós-estruturalistas franceses como a
gente os chama agora. Eu estava a ponto de começar a faculdade de filosofia,
meu marido sendo já professor.
Eu não tinha nenhum contato real com o assim designado
“bas-fond”. Apenas como todo mundo tive minha fase de “desbunde”, desde oitenta
e oito, após um acidente que sofri, “desbunde” que no meu caso, por razões
especiais ligadas à circunstâncias da minha vida naquele momento, implicava
justamente a maior “deserção do social” possível. Meu marido, cuja devoção são
os livros, não comungava esse desbunde. Conservava eu praticamente apenas a
amizade do meu irmão mais novo, que frequentava nossa casa e estava no mesmo
“desbunde”, mas que hoje já não se encontra entre nós.
Também aquela minha fase de “desbunde” tinha passado
pouco antes ou por essa mesma época em que ele nos deixou. Eu estava tão careta
quanto agora, no dia que soube que o meu irmão morrera atropelado na véspera.
Nada disso, nada daquela proposta literária e
existencial é possível agora, naquele mesmo plano da sensibilidade. Pois não
existem mais conjuntos de população organizados, apenas hordas vorazes, perversamente
mentecaptas, imprevisíveis, que assim obviamente não podem ser captadas como
habitadas por elementos que, cada um, seria apenas o protagonista do seu fazer
intrínseco e constitutivo. Não, o integrante das hordas é, cada um, um
paranóico, que só sabe tudo da vida particular do vizinho a quem espiona como
um nazista a um judeu, junto com os outros paranóicos, mediada sua espionagem
sistemática por aquela outra, a das mídias, que alardeiam seus resultados por
forma de slogans cifrados, que cada um reconhece como seu código eletivo a
revelia de qualquer contexto, mas sempre resultando na mesma mensagem, um
comando de assassinato e um nome de elogio.
As hordas são protagonistas de linchamento de pessoas
inocentes, caluniadas, o meio de propagação de seus atos é a internet, onde
passam mensagens de comando de assassinato de pessoas sistematicamente
espionadas, e os dois lados são os espionados isolados e as hordas que se fazem
e desfazem ao sabor do alvo da vez, mas a cada vez há um uníssono, o nome do
elogio que supostamente elas escolhem mas que, na verdade, meramente repetem
dentre os slogans disponíveis pela mídia precisamente para esse fim.
O que ocorreu após a queda do muro, desde a altura de
noventa e sete e noventa e oito, não foi qualquer simulação do contrato ou
menos ainda o verdadeiro constitucionalismo, mas o neonazismo travestido de
neoliberalismo econômico, e que não veio só.
Ele veio acompanhado dos cultos de massa
fascista-protestantes, um fator aglutinante de hordas além das gangs- efeito da
ação de agitadores de mídia, nas telas, na internet, nos out-doors, nos rádios,
nos jornais, nas embalagens de produtos, em indivíduos singulares que passam
nas ruas vociferando ameaças de morte a espionados, em indivíduos singulares
pagos como locutores propagandistas que propagam cifras numéricas codificadas
como mensagens de morte nas lojas, os códigos da vida íntima desses espionados
que precisam comprar – um número para a aparência desprezada como “feio”, ou
como “velho”, ou para suas roupas denotadas como “pobre” ou como “cafona”, ou
para a data do seu nascimento, ou para o que quer que seja cotidianamente
associável pela mídia, etc.
Tudo isso, todos esses agentes, apenas um, o
marcketing do imaginário da violência mais extrema que se possa projetar que um
indivíduo possa fazer contra outro, todas as formas de ação sádica
compõem o imaginário expresso todos os dias por todos os canais da visibilidade.
As lojas? Tornam-se sempre mais redutos de neonazistas, de fascistas
protestantes, etc. até que exista alguma humanidade que se livre deles.
Há uma semana soube do caso de uma mulher de meia
idade vitimada fatalmente por um linchamento, caluniada como bruxa que comia
criancinhas. Escusado dizer “meia idade”, pois este conceito só se preserva
entre nós. Na mídia, nas hordas, mulheres só tem duas idades, doze ou setenta.
A mídia, que teve que registrar esse caso de
bestialidade extrema, porque a gang que o arquitetou propagando o retrato dela
com a estória caluniosa das criancinhas devoradas, pela internet, atuou de modo
demasiado escandaloso, ou porque houve algum interesse incógnito em aplicar as
penas da lei. Mas pouco depois a mídia propagou obsessivamente a heroicização
de uma jovem - que era "jovem" foi a coisa mais ressaltada nas inúmeras "reportagens" - porque teria ela evitado o linchamento de um assaltante a mão
armada.
Logo, podemos “sacar” agora, aquilo que se chamava na
esquerda “ação direta”, na verdade não era direta, era mediada, ação
organizada, pois devia ser atuação visando uma causa, a luta de classes. Já ação
direta mesmo é apenas a barbárie qualquer.
Eu tinha vinte e seis anos, nos anos noventa, mas não
tinha qualquer referencial de mim mesma em função de faixa etária. Nós não
pensávamos de modo nenhum assim. Não associávamos de modo algum idade pouca com
“direitos” políticos ou privilégios de status, mas se o fator se mostrasse de
algum modo relevante, parecia-nos apropriado e direito que a precedência fosse
dos mais velhos.
Mas se a idade da mulher agora é tão importante quanto
o nível da renda de qualquer um, ou a frequência da igreja fascista por
qualquer um, é porque se pode linchar, caluniar, ameaçar, espionar, isolar, por
qualquer motivo – e sendo assim compreende-se que, gente dessas sendo
obviamente de tão baixo nível intelectivo, o motivo mais imediato para se
lançar mão é “feiura”, é aparência física, contudo ninguém informado se surpreende com o fato de que os que mais se preocupam com isso são sobejamente feios e geralmente são gordos.
Obviamente isso com a “bonita” do elogio podendo ser
aquela solteirona até hoje, que a gente tinha conhecido antes como bastante
destoante de um certo padrão, e a “feia” sendo aquela pessoa casada hoje e que
nunca tinha tido problemas para arranjar namorado até então. Não que para mim
isso seja algum critério quanto ao que as pessoas “são”, para gente
conscientizada ou meramente honesta nunca foi, mas falando assim de um modo
geral como o que poderia ser visado em termos de costume – ah, o que
conhecíamos das crônicas de costumes da gente “de bem”... Ou então como o que
disse aquele cara na mídia, nem sei quem, li numa revista, referenciado como
alguém importante: que todas as outras modelos e atrizes deviam cortar os
pulsos dado o fato de estrelato de uma atriz que então era novidade.
A mídia dos anos dois mil – o Jornal O Globo, antes o
Jornal do Brasil, assim como abundantemente a televisão, etc. – fez a
escola do neonazismo ressoando como faria um megafone com uma voz débil
qualquer sombra da hostilidade de um desses idiotas bestializados contra
alguém, tendo por veículo a palavra “feia” - ou a palavra qualquer, ou em
última instância, o meramente não coincidir de ser a pessoa do nome do elogio.
O comportamento odioso das “elites” da mídia desses
tempos algum dia se tornará proverbial como o habitus de uma espécie híbrida,
bestializada. Pois não há de que mais se orgulhe esse tipo odioso, do que do
seu comportamento ostensivamente sádico odioso.
Eu posso realmente especificar quem fez e como fez, na
mídia. E hoje é domingo, gostaria de ressaltar: Eu estou escrevendo que
posso, como provavelmente tantos mais podem. Ou informar a produção de retrato
falado dos indivíduos das ruas. Ou mostrar números em papeis timbrados.
Mas só será isso interessante na situação da
interlocução com agentes especificamente encarregados de aplicar as penas da
lei. Ou as penas do que nós designaríamos aquilo que precisa ser feito.
As vítimas e espionados, etc., são as pessoas que não integram gangs de
malfeitores institucionalizados no cotidiano, são os que recusam ações
socialmente patológicas, são as pessoas com mente sã. Sou pelo Nuremberg. Creio
ser preciso restaurar a descrença. A ciência, essa descrença, se auto-criticava
permanentemente, e era o paralelo necessário da consciência dos direitos civis,
pela qual ninguém sabe realmente o que pertence ao interior dos outros.
Nenhuma vanguarda desejava mais iludir, era idiota pretender fazer crer na
ficção como a uma fantasia da realidade, pelo contrário, a ficção devia se
instaurar somente como tal, mas ela podia ser o que, se nada há fora do real?
Era na fímbria do indeterminado dessa resposta – pois cada um sabia que era sua
missão arriscá-la por sua conta – que tudo se jogava. E seria natural que para
vários de nós a resposta estivesse no caminho de uma ficção tecida
exclusivamente pela renúncia de todo fingir.
Era dogma praticamente que não havia cultura -sistemas
históricos de valores - além de convenções criadas. Não se acreditava
que esses sistemas pudessem por si só, na espontaneidade, ser o efeito de uma
vontade espontânea do humano pela verdade científica. Era preciso na ciência
entender o que, subjacente à normalidade, era também o germe do anormal, do
patológico. Era preciso crítica social, ou como dizia Bergman, aquilatar sob as
construções convencionais dos valores, o quanto de fascismo suportava por baixo
da epiderme uma democracia.
A ciência se pergunta o que subjaz a uma normalidade.
A mídia, ao contrário, pretende inseminar um grão de escândalo e anormalidade
sobre tudo o que mostra, a fim de subjugar instantaneamente o olho único
redondo
que ela julga ser a tábula rasa do desejo de ver. Ou
então, porque o escândalo e a anormalidade estão “lá” apenas para as pessoas
pensarem que não estão “aqui”, o mais que ela mostra é o estereótipo. A coisa
fixa. Aquilo que é. O grande e único Signo. O pré-significado que não pode ser,
além disso, também muitas coisas... Aquilo que não entra em devir de modo
algum, x=x, etc.
Quão ingênuos eram aqueles tempos, quando se pensava
que o fascismo, assim como seu congênere, o nazismo, estava vencido para
sempre, depois da guerra, e que o que se podia criticar era apenas
sub-reptício, não o manifesto no Signo e na parole das instituições. Foi
obviamente necessário que se solapasse a educação, que então veiculava a
ciência nos meios meios da cultura, através da referencialidade das escolas,
dos livros, da pesquisa e da conexão de tudo isso com a valorizada democracia,
para que a mídia tivesse se tornado o único canal de cultura, enquanto se
persegue e proíbe a heterogeneidade das produções culturais populares além do
marcketing de igreja fascista de massa, e se zomba da democracia em todas as
salas de aula elitizadas/ fascisticizadas como o que abunda hoje em dia.
Nessas salas de aula, onde vieram adentrar os novos
profissionais que emergiram do neonazismo, o conteúdo é a mídia, não a ciência
que aí só pode habitar disfarçada de notícia de jornal ou assunto do filme
barato da televisão de ontem, e a relação com o conteúdo não é a saudável
crítica do Signo, o honesto falseamento do seu pretensioso fascínio, mas a
reverência extrema, das mais abjetas. Enquanto tudo o mais, o ser humano sendo
esse tudo o mais, é o alvo que DEVE estar subjugado pelo poder do fascínio.
Além disso, não é possível agora aquelas experiências
porque agora não temos mais máquinas de escrever. Não escrevemos linha após
linha, mas o computador é um cursor que salta para qualquer parte do texto a
qualquer momento, nós voltamos a linhas quaisquer, preenchemos o que depois de
tê-las escrito, em meio já às linhas seguintes, nos vem à cabeça que era uma
lacuna, ou porque, muito depois de ter escrito o texto ele mesmo, repensamos
como o que poderia ser acrescentado, extensos trechos, etc. Ou mudamos a
composição das frases. O que era um se torna vários, ou vice-versa, etc. Além disso, não adianta propor que é um novo experimentalismo porque é um horror o fato que sempre se descobre, o fato de mudarem o que foi escrito ou tirarem trechos, porque o que foi escrito fica no arquivo do computador, na mesma página toda mutável, e se quisermos que transmigre pro papel é preciso pagar muito, muito caro. Tudo o que a mídia pretendeu desde noventa e sete foi fazer as pessoas crerem que eram todas uma só, a fulana piranha filha da puta de tal, primeira ou última, que se foda, e quem não parecia que tinha acreditado nessa merda idiota pretenderam eles que estava descumprindo alguma regra ontológica e que podia ser fuzilado. Porém não fuzilaram, óbvio, senão não haveria alguém para um dia desses fuzilar.
E não escrevemos totalmente em nossa
intimidade. Não podemos nos eximir por um momento do pensamento de que estamos
sendo espionados – pelas mídias, pelos indivíduos, por inimigos... Meu Deus!
Quem imaginaria naquela época que eu pudesse vir um dia a ter “inimigos”! Que
qualquer pessoa comum o pudesse! Inimigos era o que tinham somente os
grandes heróis da história, ou as mocinhas ingênuas protagonistas de novelas de
TV quando eram estórias da vitória da boa consciência pequeno burguesa.
Inimigos! Isso jamais passava pela minha cabeça.
Ou sendo espionado por qualquer um. Que estaria julgando,
à revelia de se a gente está endereçando uma mensagem ou não para o besta. Julgando
porém, sabendo ele que não, como se fosse possível julgar se estivéssemos. Como
qualquer um que nos visse independente da gente ter ido ao encontro, ou não,
mas nos julgasse como alguém que nos espera encontrar julgaria, ao encontrar. Qualquer
critério de juízo nessas condições é meramente uma cavilação. Assim como
poderia ser uma cavilação, espionarem para roubar, plagiar, etc. Ou ainda,
“mexer” no texto sem que a gente saiba, como já demonstrei que fazem na
conta da Internet – onde publiquei vários livros naquele espaço do “blog spot”. (pra onde estou transcrevendo agora, enquanto reviso, e aposto que não tinha tantos erros de tipografia)
Estamos pois num meio de desonestidade instituída
pelos mais recônditos interstícios do maldito jogo.
Todos já sabiam de “computadores” antes, mas não era
algo que todos tivéssemos, e eu não imaginava que fosse assim, de modo nenhum.
Não obstante o senso íntimo se restaura, por vezes,
automaticamente. Ou então há uma decisão profunda da gente ignorar a
contingência, se quer escrever. É quando percebo que devo, ao invés de
deixar expressar o semeado em mim como a planta inteira do sadismo, apenas
desenvolver ainda mais, até o extremo, o “pouco se me dá” – portanto, agora com
relação a todo meu até então suposto “semelhante”. Pensava eu
antigamente que esta era uma atitude de esnobe, como o “estou pouco me lixando”
de Lacan, mas na verdade como percebo agora, nós estamos nos tornando seres
absolutamente solipsistas, nós que não integramos a mutação do híbrido
bestializado.
Perante o que julgamos uma verdade científica, não se
age por dever. É meramente assim, como quando alguém que deseja molhar as mãos
não pensa que é seu dever as por debaixo de uma torneira aberta. Mas o
religioso nunca atina com isso. Ele está o tempo todo apenas pondo as mãos
debaixo das torneiras, mas não sabe o que faz, só tem uma mente obstinada na
fantasia do que Deve fazer. (creiam que há uns meses, constatei que na faetec de quintino botaram uma placa enorme escrito "continue obedecendo fielmente as leis de trânsito).
Mas também não é “ele” o objeto da fantasia, senão
“todo mundo”, o mundo que se projeta doravante apenas dessa fantasia do Dever
na mente dele, mundo real ocultado, recalcado, tornado porém não simplesmente
desaparecido, de modo nenhum. O mundo recalcado tem que estar aí na forma do
objeto da derrisão, da mutilação, da tortura, da fogueira.
Li recentemente um texto sobre o culto de Kuan Yin, a
“deusa da compaixão” oriental, eternamente doce e rósea, mas o ocidental que o
escreveu me pareceu meio tendencioso. Narrou ele que visitando o templo da
deusa no Oriente, mesmo sendo um intelectual descrente teve um êxtase e uma
visão em que ele indagava como poderia conhecê-la e ela respondera que ele
não a encontraria na aparência, nem no vazio, mas somente na mente dele mesmo.
Mas como a que a deusa oriental falaria algo como “mente”? Talvez se fosse
“espírito” ou “alma”... Estou pouco me lixando para a “mente”. Não tenho
“mente”. Essa coisa separada de não sei que mais.
A gente, cansada da “mente” ocidental, tem um
trabalhão daqueles para se livrar dela com o zen e a “doutrina da não-mente”, o
satori, o tao, etc., - ou como poderiam falar, o “cérebro/corpo” ou o “há”, ou
o “devir”, ou o “não-há”, etc. ou até a "mente natural", etc. - e obviamente uma expressão é irredutível aos seus termos, e então, volta ao oriente e descobre isso de
que is in your mind at all... Francamente, inaceitável – não porque
tenha algum preconceito com palavras específicas. Não sofro da doença
universitária. Eu tento sempre entender a conotação. Mas que conotação
de “mente” a gente poderia entender depois de tanta disciplina da
não-mente, etc?
Ou então, tentar entender o sentimento. Claro que nos
ambientes mundanos é impossível. Eles só falam por constantes esnobes, como
numa grade de teste interessada somente em se a “gente” cumpre os requisitos –
neste caso, esqueça a conotação habitual de “gente”.
Conhecer “O Homem”, como escrevi alhures... Quem pode
conhecer o que não é um “isso”? Lemos a bíblia, por exemplo. Depois que ficou
tão claro o neonazismo, lá pelos quase dois mil, quando meu irmão ficou tão
estigmatizado que morreu seis dias depois da passagem do milênio, voltei a ler
a bíblia da infância. Interessava-me então o mito dos judeus. Eu tinha já
desistido da faculdade, e depois da experiência do reino subs, veio a experiência
da faculdade, mas depois desta estabeleceu-se a que se insinuara “nos poros” da
experiência da faculdade, ou seja, o fascínio irresistível do DESISTIR. Eu
desistia, como se pode constatar pelo texto acima, percentualmente, aos poucos,
desde o começo, e antes do começo, desde o vestibular, depois de ter DESISTIDO já antes, de uma desistência bastante incentivada pela discência indecente das faculdades burras, etc... - epíteto que não fui eu quem inventou para elas, mas também professoras delas que eu conheci e que viviam estigmatizadas pelas burras, etc.
Quando “desistir” tornou-se a palavra encantada do meu
vocabulário programático, então as coisas já estavam bem mais adiantadas no
plano dos estudos de humanidades, e até então, antes da filosofia, eu não
conhecia estudos de humanidades, exceto “literatura”. A gente era educado para
alcandorar a física, e ter uns lampejos intuitivos quanto à importância da
biologia, contudo só justificável esta por parecer sempre mais ou menos mediada
pela química mais predominante na nossa mente por ser mais redutível a uma
espécie de física, dado que tudo nesse mundo devia reduzir-se à matemática - porém não qualquer e sim somente aquela que serve à física.
Meu contato com humanidades, antes da faculdade,
estava restrito a um único nome, o de Marx. Outros nomes foram agregados apenas
por que tinha o hábito de ler qualquer coisa que me viesse às mãos, mas todos
os nomes só entravam como de algum modo conexos ao pensamento de Marx.
É isso. Porém não estou disposta agora a adentrar o
gênero autobiografia, para expor sobre as especificidades do antes e do depois que importam somente ao agora
– se bem que existem, e até porque autobiografia resulta num confronto muito
direto com os espiões, envolvendo inclusive, é claro, exposição de outras
pessoas a quem eu faria referência, e que não pretendo comprometer, não
obstante o que possa ser a minha necessidade de escrever sobre a memória, etc., uma vez que não temos máquina de escrever Registro portanto aqui o ponto a que chegou a desfaçatez da indústria
capitalística..
Então li a bíblia, lá pelos noventa e sete e depois,
conjugando com o retorno de uma fé cristã que eu tinha muito viva na infância,
e depois por um período lá nos meios da adolescência, o interesse pelos mitos
dos judeus que até então ficaram na sombra, obnubilados por Mircea Eliade, o
Anti-Édipo, e Carlos Castañeda sendo o tempo todo fascinado pelas astúcias
performáticas de don Juan, confundindo pensamento com ação de modo que os
argumentos filosóficos de don Juan estavam sempre certos mas porque suas
demonstrações eram sempre feitiços mirabolantes, botando a perder o bom-senso e
a física, para transformar tudo em qualquer coisa.
Estes, entre outros referenciais antropológicos ou
quase-antropológicos. O interesse pelos mitos dos judeus, junto com o retorno
da minha fé, aplicava-se desta vez à veleidade de que podia assim, apelando a
Deus, salvar o meu pobre irmão. Essa fé agora ia no rumo dos judeus, em vez do
catolicismo ou protestantismo, o descanso dos judeus, as promessas aos
judeus...
O que não efetivou-se, como se sabe, e ele, que se
chamava David, foi enterrado num Sábado.
Na bíblia o que a gente vê? Que o Deus tudo pode, e
tudo faz, ele brame e ruge contra os homens insensatos, ele pode mover as
montanhas abaixo contra eles, pode queimar suas aldeias e entregá-los aos
inimigos, pode crivá-los de doenças, pode tornar todos famintos, e sobretudo
estabelecer que para Deus nada é impossível. Não me detenho nas contrafacções
de filósofos pró ou contra a tese da não-impossibilidade, mas apenas notar
isto: na bíblia Deus pode tudo mas não pode mudar a natureza do homem. Ele os
castiga o quanto quer, vezes sem conta, mas não consegue mudar o coração deles.
E depois vem o Cristo, que aparentemente, percebeu
precisamente isto e mudou precisamente isto. Mas o que vemos então? Que nada
mudou, que logo os homens estavam se matando para fazer instituir, cada um, um
Cristo por sua própria conta, e nem mesmo quando ficou um só afinal instituído
foi o inferno recolhido para debaixo da terra ao invés de continuar disseminado
sobre ela, porque então o Cristo instituído passou a perseguir sob o pretexto
da heresia, da bruxaria, ou meramente de que mais se lhe viesse à cabeça, mas
na lista dos dizimáveis pelo instituído cristão, figurou principalmente os
próprios judeus.
Perseguir, torturar e matar – e nem mesmo meramente
eliminar de um só golpe indolor.
O “Cristo” continua fazendo a mesma coisa hoje em dia,
e há alguns anos estava fazendo isso institucionalizado pelo governo no Brasil
e na América Latina, o Cristo agora é o Jesus Coca Cola Cristo, dos USA e do
marcketing, sob o pretexto de dizimar o “comunismo”, passe-partout para qualquer
coisa de que os cristos americanos cheios da gaita que roubaram do mundo
inteiro, ou o vulgo seu representante local, queiram se livrar.
Está bem que assim a gente não consegue entender
patavina, quanto mais O Homem. Vamos tentar de outro jeito. Por exemplo,
poderíamos perguntar o que um homem pensa quando escreve sobre o
potlach, o costume de um povo “primitivo”, lá dos USA de antes dos ingleses.
Ele faz vez que esse costume só pode existir numa sociedade onde já está
instituída diferenciação de status, pois denota hábitos de consumação
suntuosos.
O potlach é um quebra-quebra de objetos preciosos, que
um grupo de prestígio de status tem a obrigação de possuir. Quanto mais
preciosos os objetos destruídos na festa do potlach, para a qual se convida
evidentemente todo o mundo para ver, mais chances tem o fazedor do potlach em
angariar com ele mais prestígio de status na sociedade. Mas se angariou mesmo,
só vai o fazedor saber depois que outros potlachs se seguirem, e as
pessoas tiverem decidido qual ou quais dentre eles eram realmente suntuosos, em
comparação uns com os outros.
Ora, escreve o estudioso que entre os bens destruídos
nos potlachs podiam eventualmente constar escravos.
Que pensa ele quando escreve isso?
Podemos pensar que ele se exime de sofrer o espanto
mais radical de si para consigo, uma vez que pudesse raciocinar em termos
evolucionistas. Já não se fazem coisas aberrantes assim hoje em dia. Ao
contrário, ele procura justificar a sociedade “primitiva”, lembrando que hoje
em dia justamente se fazem coisas piores porque em escala incomensuravelmente
maior, tal como inventar bombas atômicas e todo tipo de dispositivo para
assegurar a riqueza das minorias às custas da miséria das maiorias.
E ele conserva aquele inequívoco tom humanista,
tal que a gente deve sentir ser essa leitura edificante, por que assim
estamos nós compreendendo a humanidade, e talvez por trás desse estilo
estivesse a máxima de que tout comprendre c'est tout pardonner. Mas se a
gente for por aí perdoando tudo, a justiça se esfumaça de qualquer
possibilidade pensável por nós mesmos. Creio eu. Isso é de se ficar confuso.
Realmente. Mas as instituições estando sãs, a gente pensa, ça va sans dire.
A justiça se faz, as coisas continuam nos eixos, todos em seus lugares, etc.
Além disso, a defesa dos primitivos é que eles são burros e por isso é que nunca foram inventar a bomba atômica. E quem quer a justiça? A gente realmente não pensa nisso. Para alguns que argumentaram algo recentemente,
a gente não pensar nisso implica que a noção de eu emerge só se a gente se pega
numa situação em que está obrigada a pensar. Se a pessoa fosse o escravo, por
exemplo.
Para mim, o que emerge assim não é obviamente a noção de eu, naquela acepção do que se incorpora aos potlachs, bombas atômicas, nazistas ou adoradores da informática que procedem como se não se tratasse de logomarca industrial movida a dinheiro & consciência extorquida das pessoas, mas de Deus baixado pelo download.
Mas sim a clandestinidade, precisamente o quase-contrário, um outro eu que desdefine a substancialidade ou a redefine como o imilitado, Deus! como Aristóteles era burro! E os estoicos também! porque não creio que a adesão muito humana ao divertimento do homem que é subjugar o outro homem, ou a adesão qualquer ao que o homem faz em coletividade, seja simplesmente o contrário do eu, como alguma ação automática, uma coletividade interna, etc. - tudo isso que me parece um contrassenso se pensado, mas que não é bem pensado, é somente dito.
Para mim, o que emerge assim não é obviamente a noção de eu, naquela acepção do que se incorpora aos potlachs, bombas atômicas, nazistas ou adoradores da informática que procedem como se não se tratasse de logomarca industrial movida a dinheiro & consciência extorquida das pessoas, mas de Deus baixado pelo download.
Mas sim a clandestinidade, precisamente o quase-contrário, um outro eu que desdefine a substancialidade ou a redefine como o imilitado, Deus! como Aristóteles era burro! E os estoicos também! porque não creio que a adesão muito humana ao divertimento do homem que é subjugar o outro homem, ou a adesão qualquer ao que o homem faz em coletividade, seja simplesmente o contrário do eu, como alguma ação automática, uma coletividade interna, etc. - tudo isso que me parece um contrassenso se pensado, mas que não é bem pensado, é somente dito.
Não, o que ocorre é que muitos homens não aderem ao
divertimento humano de subjugação do homem, mas o divertimento é que implica o
recalque do eu em função de uma monomania do Dever ser se tornar o deleite do
julgar, pelo que é levantada, suprassumida, a espessura entre o eu e o outro. Mas
os que não aderem deixam de integrar o veículo, o divertimento, o “Homem”. Eles
se tornam clandestinos. Eles só tem agora, o próprio eu. Esse eu lhes foi
devolvido, portanto, como a sua sanidade. Mas que insensato seria ver nisso
algum meio de progresso! Que coisa mais velha pode existir do que aquilo que sempre fomos?
Esta é a minha fórmula da clandestinidade atual.
Antes, pelo contrário, a fórmula continua um elemento de solidariedade
humanística em torno da noção de tarefa, sempre ancorada mais geralmente na stimmung
da observação crítico-científica .
A gente é conduzido quase que naturalmente a pensar
que deve ter havido alguma contradição, e que se a definíssemos,
compreenderíamos porque o devir se revelou tão imprevisível. Isso é ainda uma
ingenuidade.
O devir devia ser imprevisível. Mas porque foi como
foi – e não de outro jeito qualquer? Está aí mais um dos nossos
círculos. O que eu quero dizer é que havia mesmo talvez uma contradição nisso
pelo que desde os tempos de Nietzsche para diante, ninguém mais acreditava na
ciência como verdade dos fatos ao invés de linguagem autônoma, e o último
avatar da metafísica da verdade ontológico-factual, todos concordavam, havia
sido o cientificismo positivista. Era urgente a tarefa de salvar Marx dessa
pecha epocal.
Bem, em todo caso, vejamos que se a ciência é uma
linguagem autônoma entre as inúmeras linguagens autônomas, isso devia conduzir
a uma revolução pós-ocidental. Não necessariamente pós-epistemológica, porque é
muito difícil decidir se as linguagens não são – todas e cada uma delas
– uma posição de saber possível. A gente devia acordar e pensar que a
imaginação poderia ser o antídoto ao Poder. A imaginação, porém, estava do lado
de lá da “linguagem” qualquer. Porque isso era o ocidente, a descoberta da
linguagem como qualquer do qualquer. O equívoco fôra tamanho que se propagava a
bobagem de “a imaginação no poder”.
O antídoto do poder é o eu, o singular nesse eu, o
intotalizável do nosso saber que não forma um saber tal que o meu recalca o
seu. A minha perspectiva não é a sua, apenas isso. Mas assim linguagem não é
simbólico – universal. Não é um círculo – hermenêutico. Não é qualquer coisa
que se possa definir, além do que ocorre em mim, em você. A gente devia se
conhecer. A gente devia se ouvir uns aos outros, quando a gente endereça ao que
supõe ser a compreensão dos outros, aquilo que queremos expressar como o que
descobrimos. Mas não podemos, presentemente. Não podemos.
Estamos nessa do computador e de hordas, nessa de
horror ou então, de inscape à Hopkins – ninguém escapa de algum dos
Cristos – estamos nessa. Só o que podemos.
Naquela fórmula anterior a ciência tinha uma relação
com a espinafração da política – porque ela havia se tornado uma rede de malhas
tão amplas que os maiores peixes passavam através dela, como dizia Deleuze para
casos assim, de total inadequação de um discurso ao seu objeto. A política era
o que o desbunde vislumbrava, nas ruas, o próprio fato do desbunde ser
clandestino na acepção comum -não a que eu utilizo conceitualmente - de ser
simplesmente ilegal, ainda que naquela época essa ilegalidade fosse objeto
apenas de chacota de todo mundo, até mesmo da polícia. Todo mundo pensava nisso
como uma bobagem, não havia repressão ostensiva.
Mas é claro, havia o fato da ilegalidade, que me
irritava, e sobretudo o fato de que quando se discutia politicamente isso, ou
seja, a sério para descriminalizar na lei, todo mundo podia discutir, menos os
interessados: quem vende, quem compra e quem produz. Onde já se viu uma
discussão em nível de lei na qual os interessados são somente aqueles que não
podem participar? Onde já se viu até mesmo um tribunal onde o réu não tem
defesa, nem pode apresentar nenhuma? Isso é CRETINO. Isso é “Cristão”. Isso é
fascismo, neonazismo made in CIA.
Pra eles açambarcarem dinheiro, controle político,
mesmerização via mídia, etc. ou apenas porque são CRETINOS.
As leis existem como regulações setorizadas de
condutas setorizadas, portanto são regulações que dependem da exposição de
motivos por parte dos interessados, que somente conhecem os meandros
subjacentes às condutas. Não todos os meandros são conhecidos por todos os
interessados, e é por isso que precisa haver lei. Para um interessado poder ter
regulada sua relação com o outro, cada um no seu nível de interesse conforme
competência da sua relação com o fenômeno do qual se trata. Além disso, a lei não funciona, como obviamente se vê. Portanto diferença nenhuma vai haver se houver descriminalização - exceto que muuitas fortunas vão deixar de estar na ilegalidade, para o bem dos impostos públicos, e que os hospitais cuidarão dos poucos que precisarem.
E o que eu pensava era que meu material, como eu
chamava na verdade apenas vagas observações não tanto do ambiente social quanto
do estado de espírito do observador clandestino, era similar ao que devia ser
interessante publicar como a perspectiva de alguém interessado. Claro que não
publicam essas coisas nos jornais – só publicam o discurso dos que supostamente
falam “sobre”, como conservadores, médicos, políticos, charlatões, cristãos fanáticos, etc.
Mas quem somos nós, que não cultivamos hábitos
suntuosos de potlach, nem fabricamos bombas, nem fingimos que entendemos tudo
isso? Quem somos nós que pensamos desse modo a lei? Por que essa pergunta
soaria impossível de se responder postas assim as coisas, é que eu precisei do
conceito de clandestinidade – Lembrem-se. Mas clandestinos não são os agentes
introdutores da mentalidade constitucional neste mundo. Ou são? Seria interessante lembrar a essa altura que o meu grande filósofo, pai de todo o liberalismo político & constitucionalidade previsível neste mundo, o Locke, foi um clandestino. Ele precisou de um nome falso, e ficar num país estrangeiro, até que a porcaria dos Stuarts hobbesianos se danassem. A Inglaterra, quando ele voltou, tornou-se o espelho da racionalidade universal à qual se deveram as futuras Revoluções, no todo ou em parte.
A história não deve ser uma barafunda, se a gente
cultiva alguma perspectiva. Para descomplicar ao máximo, lembrem-se também da
relação que estabeleci entre a clandestinidade e a época histórica do
constitucionalismo conexo às vanguardas, não obstante o quanto estes podiam ser
críticos daquele, uma vez que subjacente à época toda como sua armação
constitutiva estava a permanente auto-crítica.
O importante da descoberta do Homem é que Ele pouco
entende da sua Ciência. As ciências humanas não são como a física, nem
como a química, tem só um pouco a ver com a biologia, nada com a matemática, e
lógica só se for a perspectiva. Poucos entendem o que são as humanities, porque
pensam que toda ciência é do fato = x – seria idiota negar que os geógrafos,
salvo as exceções de casos difíceis, não tem muito porque discutir se aquilo
que está ali é ou não uma montanha. Nem imaginam os telespectadores que nas
humanities isso não funciona. O objeto é problema do teórico demonstrar que
existe, porque só tomamos conhecimento da “coisa” depois de ele ter lhe
dado um nome e formulado o seu conceito. Há tantas histórias quanto
historiadores. Há tantas antropologias quanto antropólogos. Etc. A ciência da
história é conhecer quantos mais historiadores pudermos, a da antropologia é
saber as tantas que andam existindo, mas sem muita convicção de que alguém
esgotou a lista. Contentem-se em proceder por amostragem. Ou seja, notem
que a lista não é assim tão infindável, se vocês podem notar que muitos
destes que dizem que produziram um conceito na verdade apenas estão utilizando
o de outro já produzido, trocando o nomezinho e parafraseando as definições com
sinônimos.
A própria lista é problemática e precisa de um teórico
que dê um conceito a ela. Eu, por exemplo, penso que a lista é histórica. Os
historiadores, antropólogos, sociólogos, teóricos da literatura, psicólogos,
etc., não proliferam por aí a esmo. Eles vem aos grupinhos, e tem sempre uma
ideia geral sobre o que é que estão fazendo, ainda que o quente seja que cada
um vai produzir uma interpretação própria dessa ideia geral, e ideia que muda
conforme os grupinhos, que são aglutinados de tempos em tempos, a lista é Histórica,
e a ideia tem a ver com tudo o mais do tempo – ETC.
Uma dominante supra-histórica supra-temporal, como a
mente, ou a salvação, ou a propriedade privada, etc., não existe, mas sim uma
dominante planetária que recentemente – há uns quinhentos anos – vem se
instituindo, o que eu designei geoegologia, o que pode ser traduzido em termos
gerais como a minha interpretação do IMPERIALISMO (vulgo, a safadeza cristã- “ocidental”, da qual todos os outros credos vem se reclamando, depois, de serem os verdadeiros promotores).
A ideia geral por trás da geoegologia é: há tantas
humanidades quanto há “homens” (= homens e mulheres e crianças e trans-sexuais,
e astronautas, e mutantes, e ...). Mas isso não implica que não se possa notar
que muitos desses “homens” apenas estão repetindo uma mesma
prescrição de “humanidade”. E que essa multiplicidade não tem nada a ver com a
priori, é perspectiva.
“Muitos” homens são “doentes” por terem se deixado
REDUZIR a uma mesma fórmula. Mas na verdade se deixaram mesmo? Eles convencionam
que sim, e no entanto, não podem deixar de serem “outros”.
E agora, o que está? Estou vendo se posso reorganizar
o conceito de clandestinidade, o que implica ser necessário alguma experiência.
A essa altura, em termos literários, só poderia ser a meta-experiência de
registrar as Histórias da Clandestinidade naquela época escritas, para... Vaga
sempre essa questão da propositividade, em se tratando das experiências da
clandestinidade. Em todo caso, registrando. Ficam registradas, ficam retomadas,
ou apenas... Não sei ao certo. Há um interesse nisso. Pode ser que depois eu
possa entender qual. Mas naquela época tudo o que eu repetia era que não havia interesse algum. Nenhum de sobra.
Pode ser que tenha a ver com fugir da teoria, ou
tentar não me deixar imergir de todo só na teoria, ou não sei. Ou continuando a
ser humano e evitando reduzir-me e a O Homem somente no “objeto” da ciência,
mesmo que essa ciência que os cientistas não-humanos, os telespectadores, a
mídia, o capitalismo, o senso-comum, o desespero, as falsas certezas, etc.,
perverteriam, ou pela clandestinidade ipso facto, ou por alguma praxis
transformadora, ou?
Nesse ínterim eu desenvolvi vários interesses. Ou então estou fingindo, mas não sei. Na
ficção, os textos que reuni em Contos do Espelho. Na teoria, o meu conceito de
leitura histórica pós-ocidental que designei “geoegologia”, ao mesmo tempo
refletindo minha interlocução e minha ruptura com o pós-estruturalismo, e está
por enquanto publicado apenas em dois livros teóricos, mas em geral minha
produção teórica já está com vários livros por publicar e estou botando tudo em blogs. E depois houve um
gênero “irado” de prosa, que está intitulado “Contos da musa irada”. Os dois
livros de “contos” estão publicados. Ainda que não conste registro na "memória social" que eu conheça. Todos esses interesses foram desenvolvidos
já nesse terceiro milênio, e continuo produzindo. Agora estou com vários textos
teóricos em andamento, mas especialmente elaborando o que enfoca um retorno a
Marx.
Pode ser que o meu interesse em voltar aos escritos da
clandestinidade tenha algo a ver com temperar um pouco a prosa “irada” - por
exemplo, eu diria, não tenho mente, quero que a “mente” - o racionalismo - se
foda, etc. Dói na gente, se quer saber. Escrever assim.
Pode ser que esse sentimento não seja a literatura,
ele existiria em todo caso, e se expressaria de outro modo, se não se
expressasse literariamente, se é que se expressa de fato assim. A literatura
são suas leis, etc., eu concordo plenamente. Mas a gente sente.
Aqueles escritos dos anos noventa eram tão de outro
modo, tão halciônicos, eu não tinha raiva nenhuma, eu não tinha isso, eu
tinha a ideia da humanidade, uma espécie de harmonia interior, etc –
pois é, o etc. é sintomático já de um pós, de uma gozação, aquilo que
ficou lá, e tal, & sem paciência nenhuma, e reduzindo tudo a uma espécie de cálculo, um sinal algébrico, o que significa exatamente a lacuna que está aí, la breche, etc. E pode ser que ainda esteja aqui, eu penso, eu tento, quem
sabe?
Mas eu não sei como transcrever. Deve ter
havido uma progressão na soltura das expectativas. O primeiro texto,
propriamente intitulado “histórias da clandestinidade”, não está no mesmo nível
de alguns outros, e eles todos são muito desiguais. Convergem para essa
soltura, que naturalmente se espalha em torno de acontecimentos traumáticos,
esquecimentos, confrontos, novas obrigatoriedades, novas explorações, mais ou
menos opressivas, e resistências... O que chamo de expectativas. Os gêneros de
linguagem? O que eu conhecia antes. As coisas e as pessoas. A atuação com base
nas expectativas. O sentido. Ao invés, era apenas a descrição pura, ou a
informação pura, ou a história lá fora, ou a política sem conceito, a espera do
conceituar, ou o pensamento onipresente. Onipresença miseravelmente
indeslocável entre o imperativo e a boa-vontade.
Não sei como transcrever, obviamente não significando
que não sei como copiar do papel. Por trás da descrição pura das horas vazias
de isolamento conspícuo e que pretendia não ser mais que voluntário – e
provavelmente não o era – reconheço traços de lembranças tristes, reconheço
como estavam marcando as frases aparentemente sem relação com elas, e que
pretendiam tê-las, justamente, despedido, desenfocado, destituído de valor de
afetação qualquer. Não sei porque copiar aquelas referências cifradas, que
provavelmente fizeram uma progressão precisa, a série exata da sua ordem
expressiva, expressão atrás de expressão, como numa arquitetônica dos dados
inaceitáveis, e então depois eles estavam aceitos, ou inoperantes para efeitos
de anulação de mais ações almejadas, como agora. A série exata resultando neste
agora...
Parece não interessar absolutamente. O que é
absolutamente interessante é que justamente, tudo girava em torno do descarte
do interesse – como do interessante. A argamassa das expectativas.
Histórias da clandestinidade, o título, é por demais pesado. Penso em
selecionar com maior vagar... Sinto inevitavelmente que aquilo era muito
mais corajoso e honesto. Hesito muito e não sei o que fazer.
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Aproveito este espaço para registro : Meu retorno a Marx ===========
Primeiro há um trajeto, e depois outro, conforme duas universidades, que já estão retraçados para dois parágrafos relativamente pequenos. Mas aqui a subsequência:
Se conforme Habemas o valor e a argumentação se tornam oponíveis de modo que o primeiro não precisa ser universal mas se o segundo é, então há moral porque a ética trnasida do conteúdo do valor variável à forma argumentativa da pretensão de validez, e assim do relativo cultural ao absoluto verdadeiro, resta que a decisão pelo que há argumentação transpôs assim a cisão aristotélica de noesis essencial e phrônesis humanística. A qual hoje seria estabelecida com alcance não funcionalista-oligárquico-aristotélico, na cisão epistemológica de ciências naturais e humanas. Porém a ultrapassagem foi proposta sem haver para a orientação platônica da unidade sem cisão, nada além do critério obviamente relativo e valorante do "melhor".
O valor só poderia ter uma base argumentativa que o transcendesse enquanto ideologia da base material, mas então estaria explicada a própria argumentação como vontade. Pois não é necessário que o valor para mim (ou para nós) tenha que se tornar valor para você (ou para eles) sem qualquer interesse ulterior envolvido. Mas o que se deve compreender é então a base material que o transforma nesse vetor da coação alheia. E não o interesse em simplesmente afirmar ou negar valor de validez ao "valor" cultural, o significado em que se crê ou descrê, o que seria algo como o "terceiro homem" do idealismo socrático-platônico assim como já o havia contraditado Aristóteles.
Na história creio ser facilmente demonstrável que religiões, costumes e demais formas de adesão valorativa não são por si mesmos veículos de guerras ou de quaisquer uso de argumentação para se impor a outros, até que sejam vistos como pretextos para interesses de domínio que vem de motivos ulteriores a eles, motivos portanto materiais nesse sentido de não explicados pelo conteúdo do valor que se quer pretensamente impor. Se o interesse da base material restar indiferente, crenças e religiões coexistem na tolerância mais pacífica e a argumentação transita para a obtenção da legalidade como meios de expressão da tolerância visada agora em prol dos direitos da cidadania ou da humanidade. O estado de coisas pacífico da tolerância se encontra em muitos exemplos histórico-antropológicos, não apenas na "modernidade ocidental".
Mas a teoria de Habermas não permite distinguir os dois "valores" a que pode servir a argumentação.
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